Bau e lembranças

E o baú estava revirado, algo comum em fim de tarde. As lembranças trazidas do sonho da madrugada perduravam do começo da manhã até o almoço. Desnorteada, Dona Marta abriu seu bem estimado baú, aquele que ficava ao lado da cama, o que lhe fazia companhia nas noites duvidosas. De madeira velha, mas reforçado por finos desenhos de ferro, muito bem cuidado por aquelas mãos bem vividas. Ela se sentava quase como criança em frente ao baú, alisava suas gravuras e arranhões de muitas viagens e, com delicadeza, o abria, inclinando-se com prestes a pular dentro. Retirava de dentro do baú uma carta. Em sua frente, um envelope gravado em dedicatória: condenada. Com um sorriso de esperança jovial, abria a carta como se fosse a primeira vez e a lia com voz de canto, pesada e lenta, como se recitasse um profundo poema.

“Retijo tal documento com selo e responsabilidade que lhe é atribuído, como muitos outros que vieram. Declaro à ré, acusada, convocada e como autoatribuída de todos os atos anteriormente apontados, e atribuo a esta o título de a pior, e arremato à mesma o último lugar, a última posição possível, como os outros de igual injúria a serem servos dos piores. Aponto que a mesma não demonstra qualquer remorso e percorre de maneira intensa os mesmos lugares a colocar nesse tribunal. Atribuo a esta, por último, o título de herdeira dessa tão difícil obra, de tão solene propósito.”

Seus olhos corriam as linhas que retornavam e retornavam. Seus dedos dançavam na borda da folha. Seu corpo fazia um movimento sutil, como se a cada linha sofresse um breve espasmo, como se fosse pega de surpresa a cada declaração. Seus pés, já velhos, tentavam manter-se confortáveis no chão frio, levando uns minutos para recuperar da lembrança, fechar e pôr a carta de volta.

E agora, voltando a se inclinar, dessa vez com ambas as mãos firmes, toma uma bela caixinha de manivela fina. Colocando a caixa à altura do peito, gira a manivela. Um som desperta da caixa e a dança levemente pelo chão. A música feliz tira, por um momento, o sorriso do olhar da senhora. Foi sua primeira caixinha de música, aquela dada por sua mãe, consertada diversas vezes pelo pai. O toque e o cuidado que a mesma teria dificuldade em soltar em um certo momento de sua vida. O diálogo  ja estava  marcado em seu corpo:

— Fui marcada, devo ir ao fundo do mundo.

Ambos os pais sentados, cadeiras lado a lado. na mesa,  Uma lasanha feita com delicadeza, um suco de frutas vermelhas ao lado. Sua mãe, despenca  em seus braços, a dizendo:

— Você pode fazer tanto daqui. Desafie o tribunal. Não vê que tal condenação é ridícula? Drarei até você centenas que apontarão seu valor aqui. Não vá, pois o fundo é frio.

Destoando de maneira breve, o pai brada, não com raiva, mas com firmeza:

— Não vá. Tu leu errado a carta, entendeu errado. Ficará aqui, servirá os daqui e será servida. agui tem sol, aqui tem água e caixas de música.

Indo por seu quarto em prantos, para em frente à mesma cabeceira onde reiteradamente fazia seus cabelos ao som dançante. Pega sua caixinha de música e põe-se de joelhos, escrevendo agora uma carta invisível.

— Excelentíssimos juízes, me deu o pior de sua parte, pois me forçam ao fundo, mas me prendem ao sol. Me chamam ao convés, mas mal posso adentrar o barco. Como poderei cumprir o santo decreto?

Após um grande choro da condenada, que não pôde feliz seguir à sua prisão, a noite passa e o dia chega e, sem demora, retorna a caixa para o baú e traz no lugar um belo passarinho de madeira.

E lembra, de maneira clara, a frase de seu pai:

— Me deram-te emprestada. Jamais poderia, em plena consciência, roubá-la. Abro mão, mas rogo: leve contigo a caixa de música, e mais isso presente. Darei isso, pois, como tolo, te prendo em gaiola, mas você não me pertence.

A outra lembrança mais próxima do bendito ano seria ela em um barco indo a algum lugar, à beira de nada, indo servir a ninguéns. O barco seguia sua rota ao norte. Seus pais a abraçaram até o último aviso de embarque. O choro certamente salgou o mar, mesmo que só um pouco mais. Sua memória acabava e o sorriso, empregado em seu rosto, agora carregava um pouco de saudade.

Novamente se inclinando, agora agarra um guarda-chuva, o qual não era dela, ela apenas guardava. De um dia chuvoso, alguém sem pretensão se encontrava em meio à lama e à chuva. Os pingos cobriam seu corpo. Já não era capaz de mover-se. A tempestade não tinha hora para acabar, quando um amigo a presenteia com um guarda-chuva, um diferente, pois era o que no momento segurava. Ele, após pedir um pouco de água do seu alho, e após continuar, a acompanha por um tempo, mas logo ele chega a seu destino e ela continua. Porém, como já havia aprendido, encontra outro jovem no caminho correndo, o ajuda a levantar, põe-o debaixo do guarda-chuva e o acompanha pelo caminho. Mas logo a tempestade acaba para ela. O guarda-chuva continua com o jovem, que um dia irá devolver para outro necessitado. E, por enquanto, ela tem aquele que guarda para os dias de tempestade.

Enfim, fecha o baú com as mãos calejadas, saca de seu bolso a única coisa de sua jornada que não pode ficar sequer um dia afastada de seu corpo: um relógio de bolso, o qual recebeu em casamento. O noivo disse que um dia voltaria e a pediu que acompanhasse o relógio. Levanta-se, sai do quarto e fecha a porta.

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sou natanael

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Sou escritor e apaixonado por transformar ideias e sentimentos em palavras. Neste espaço, compartilho textos que exploram emoções, conflitos e histórias do cotidiano de forma simples e intensa. Aqui, a escrita é um convite para sentir, refletir e se conectar.

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