Último vinho

“O garçom sorriu e saiu, deixando duas taças de vinho rosé. Disse, meu caro marido, que eu nunca iria provar algo parecido. Era a terceira noite seguida que ele vinha com o mesmo terno azul fosco e gravata vinho, o terceiro encontro da nossa semana de 26º aniversário de casamento.
— Lembra de quando dançávamos, ao som de piano velho no quintal da casa de seu pai?
disse o homem, observando o tom do vinho na minha frente.
— Lembro de quando não tínhamos dinheiro e meu irmão tocava no piano do meu avô, para termos uma noite romântica — respondi, debochando do clima cortês.
— Você não mudou muita coisa, mas será que ainda sabe dançar?
Provocou-me. Eu me debrucei sobre a mesa e respondi:
— Quando você quiser.
Ele pagou a conta, levantou-se da cadeira, me carregou nos braços e me levou para fora do restaurante. Conduziu-me até o centro do estacionamento, me colocou de frente para ele e colocou uma música velha de piano, de um tecladista novato que ele havia encontrado na internet.
Pôs o telefone no chão e bailou comigo sob o céu estrelado. Rodou comigo entre os carros, me levantou, comprometendo sua coluna de senhor. Acho que foi na terceira repetição daquele áudio, mas, no quarto giro, ele se deitou sobre meus ombros. Seu corpo desacordou e caiu no chão.
Eu não sei quantas vezes gritei, mas o garçom já havia ligado para a ambulância, que demorou um choro para chegar.
O corredor tinha 14 passos largos de uma ponta a outra, 34 passos curtos. Os azulejos do chão estavam mais desgastados que outros. Havia quatro portas no corredor.
O meu marido estava no leito, quarto 24. Ele estava dormindo. Acordou para tomar um suco e três biscoitos secos. Estava bem quando acordou. Contou duas piadas ruins, pediu perdão pelo incômodo. Ligou para o meu irmão vir buscar e disse que não iria. Foi quase um susto ao responder.
Eu estava ansiosa quando o médico chegou.
— Você é a senhora Felipa?
— Sim, esposa do…
— Seu marido se encontra bem no momento, mas há algo que eu gostaria de tratar com os dois.
Levaram-me para dentro do quarto, onde meu marido já estava acordado novamente. Provavelmente fingiu dormir para me fazer pensar que estava bem.
— Senhor, por favor, fale para minha esposa que não tem com o que se preocupar, para ela ir para casa — disse ele, rindo.
— Já disse para levar a sério.
— Você sempre se preocupa demais, querida — ele sorriu de canto, jogou o cobertor para o lado e se sentou na cama.
— Então, senhor, lamento informá-lo que talvez a resposta dos exames não seja tão boa.
— O que ele tem?
As bolsas na minha mão já não aguentavam o tanto que eu as apertava. Meu estômago embrulhou. A vontade de vomitar bateu na garganta e voltou.
— Câncer. Mais específico, leucemia linfoide aguda.
— Deus… — balbuciou Fran, quase que rezando.
— É muito comum em crianças e bebês, mas…
— Então tem cura? — perguntei, em susto.
— Lamento dizer que é pior em adultos.
— Querida, não se estresse. Faremos o tratamento certo, doutor.
— Sim, faremos mais exames e veremos o que podemos fazer, mas receio dizer que a possibilidade de cura é muito menor.
Senti que perdi o controle do meu corpo por um momento. Caí de joelhos, debruçada sobre aquela cama. Chorei. Não sei quanto tempo. Quando recuperei a postura, o médico já não estava mais, e meu marido acariciava minha cabeça. O sol já havia entrado no cômodo.
.
Voltamos para casa, comigo dirigindo. Foram muitos exames e remédios prescritos. Eu já estava um pouco sem estrutura. Meu marido, pela primeira vez em quase três décadas de relação, ficou completamente em silêncio.
Ao chegar, subi até o quarto de hóspedes. Lá fiquei até terminar a oração. Debrucei-me sobre a cama e encharquei o lençol com o resto de lágrimas que sobravam.
Na semana seguinte, após a chegada do resultado triste dos exames, o médico receitou mais outros. “Ainda havia coisa para ver”, ele dizia. “Não tem como dar veredito da situação.”
No terceiro mês, comecei a socar o colchão. Efraim já não ria das próprias piadas. Ele já não comia. Sentia dor por causa dos remédios. Ele se esforçava para levantar o garfo. O frango ficava no prato, sem sabor, por recomendação médica.
No sétimo mês, o quarto começou a juntar poeira. Meu marido não saía da cama. Ele saía do hospital e entrava no quarto em silêncio. Pegava um livro qualquer. Fingia que lia.
No primeiro ano, orar não fazia sentido. Mesmo assim, eu me esforçava para repetir uma prece enquanto chorava no chuveiro. Era o único lugar da casa onde eu chorava. E era de onde nunca saía.
Foi comendo uma comida quente em uma tarde. Eu o tinha deixado no hospital com meu irmão, para poder ir em casa e trocar de roupa, algo já comum nas minhas semanas.
O telefone tocou.
Ao atender, a voz estranha provocou um arrepio incomum na minha espinha. A frase seguinte me levou a arremessar o aparelho na parede. O copo caiu no chão.
Eu não chorei.
Meus pulmões gritaram, lançando para fora toda a raiva. Meus olhos doeram. Meu corpo ferveu. Os vizinhos bateram na porta, preocupados. Arremessei a mesa, os talheres da gaveta, os pratos dos armários. Me ajoelhei e me abracei. Meu corpo já estava mais magro do que há um ano, mais frio. Apertava e arranhava o meu braço enquanto rangia os dentes e grunhia. Foi quando, encarando o teto, eu disse:
— Eu te odeio.
E me arrependi, louca, após gritar.”

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sou natanael

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Sou escritor e apaixonado por transformar ideias e sentimentos em palavras. Neste espaço, compartilho textos que exploram emoções, conflitos e histórias do cotidiano de forma simples e intensa. Aqui, a escrita é um convite para sentir, refletir e se conectar.

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