
A maquiagem já estava pronta, mas, no banheiro, os sons de berros e gritos de ameaça eram menores. A briga ficava do lado de fora, e eu me entretinha com a quinta repetição da mesma música. O celular na mão vibra, e a música cambaleia. O susto me leva a ler a mensagem atrasada, que espero há vinte minutos: “cheguei, já pode vir”.
Até que enfim.
Olho o espelho e repito a oração costumeira:
“Pai, me protege na minha ida e na volta, amém… Pai, hoje quero um presente de aniversário, amém.”
Saio do banheiro e me despeço dos dois briguentos da casa: meu pai, que gritava do sofá enquanto assistia ao jogo que gravou de ontem à noite, e minha mãe, que o ignorava e, mesmo assim, discutia da cozinha, enquanto fazia, pela quinta vez na semana, um frango.
Ao sair, me encontro com o elegantemente atrasado Jai: boné da seleção, camisa da escola amassada e uma bicicleta caindo aos pedaços — o motivo claro das minhas orações de segurança.
— se você não chega atrasado, não é você
— oh, menina chata, se não reclama, não é você, né? Bora
— que seja… Deus proteja a gente hoje
Subo na bike, amarro minha mochila no bagageiro junto da dele. Quando viro, ele me entrega uma caixa de bombom aberta.
— você abriu meu presente?
— sei que você não gosta dos de granola nem dos de coco, não ia desperdiçar… além disso, presente bom é presente personalizado
Rimos e partimos para a escola.
Na ida, virando o terceiro morro — aquele mesmo da casa de cor estranha — surge uma segunda bicicleta. Ela empurra a nossa, quase nos fazendo cair. Um menino aparece, casaco listrado, o rosto escondido até os olhos e, na mão, uma faca de cozinha velha.
Jai me abraça na hora, me empurra para o mais longe possível e sussurra no meu ouvido:
— vai ficar tudo bem
Ele me aperta como se esperasse o pior. Meu corpo treme, minha visão embaça. Abro os olhos e tudo que consigo ouvir é o som dele caminhando no chão arenoso, algo sendo jogado no chão, um som seco… e depois a bicicleta indo embora.
Nos levantamos.
No chão, as duas mochilas prendem meu olhar. Nossos celulares sumiram, assim como os fones de ouvido.
Jai esquece qualquer promessa e começa a xingar. Seu corpo se solta a cada grito, como se expulsasse algo preso dentro dele. Seus dedos tremem, e seu olhar foge de mim, foge de tudo.
Eu me ajoelho e começo a pedir a Deus justiça. Por alguma razão, vem o versículo: justiça como um pedaço de imundície… então peço graça. Resmungo durante a oração, quase brigando com as próprias palavras. É uma oração horrível de se fazer com raiva no coração.
Na entrada da escola, encontro a Riley. Como tínhamos prova, tivemos de ir. Foi para ela que ligamos depois do assalto, usando o telefone de um velhinho da venda ao lado do bar da rua de trás.
— como vocês estão? — diz Riley
— acho que estamos bem — responde Jai, com o tom humorístico de sempre
— nenhum machucado, graças a Deus — digo
— bora falar com o professor, pedir pra reagendar a prova
— não. Eu estudei o mês inteiro. Vamos fazer — respondo, já irritada
Entramos. O sino toca como de costume.
— hora da prova — diz Riley
Na sala, sento na cadeira do canto, a terceira, próxima à janela. Recebemos a prova. Escrevo meu nome como um rito e começo.
Depois de alguns minutos, o relógio fica irritante. Ele corre nos momentos difíceis e se arrasta nos fáceis, como se soubesse exatamente o que fazer comigo. A terceira questão é difícil. A sexta, quase impossível.
Duas batidinhas no ombro.
O menino de boné vermelho, sentado atrás, pede:
— me passa a resposta da primeira
— não
Na segunda tentativa, apenas ignoro. Volto para a questão 11, que não faz o menor sentido, quando vem um chute na cadeira.
— professor! — grito, assustada
— silêncio — responde
— mas ele me chutou
— mentira dela — diz o menino
— bom… eu não vi nada — encerra o professor
Me sento de novo.
Não demora muito para começar a chorar de raiva.
Na terceira lágrima, meus punhos vão de encontro ao peito. Abaixo a cabeça por alguns minutos.
A cena do assalto retoma minha mente. A lembrança do tombo volta, quase balançando meu corpo outra vez.
Mordo os lábios de raiva.
Então começo a orar.
Será que o Senhor não vê?
Seguro a caneta e volto a responder, ainda trêmula. O tempo já está curto demais para continuar chorando, e as perguntas já não fazem sentido. Perdem o peso. Perdem tudo. São só palavras soltas no papel.
Eu só quero terminar.
O sinal toca.
Intervalo.
Entrego a prova e vou para o fundo, na cadeira quebrada. Abaixo a cabeça na mesa rabiscada e começo a cantarolar um hino dos tempos de maternal.
Meu peito dói. Meu queixo treme, mas seguro o choro como quem segura a própria vida. De tanto segurar, começo a murmurar: reclamações do dia — por que meus pais brigam, por que levaram meu celular, por que o menino me chutou — mas nenhuma pergunta alivia o peso no peito.
Ao meu redor, cadeiras se arrastam, vozes aumentam, passos se cruzam.
Quando olho, estão ali: Jai, Riley e mais um colega. Jai com um violão, que com certeza pegou emprestado da sala de música.
Riley puxa o primeiro hino. Os outros acompanham, como uma orquestra desafinada.
No terceiro louvor, a sala já não é a mesma.
No quarto, começo a cantar. As primeiras palavras saem levando o ódio.
Ali entendo o Jai.
Canto como se precisasse expulsar algo dos pulmões. Outros alunos entram. O som cresce, ocupa o espaço.
Fecho os olhos.
Ouço choros. Ouço orações em sussurros. Ouço vozes conhecidas.
Algo em mim espanta a dor e silencia o resto.
Quando abro os olhos, não há mais nada a pedir.
E, à minha frente, está o menino de boné vermelho.
Ao lado dele, outro. O rosto não dá para ver, mas o casaco é o mesmo.
O menino que levou meu telefone.
Me aproximo para orar pelos dois. Jai vem comigo. A raiva dele já tinha ido embora com os louvores, assim como a minha.
Quando terminamos, a sala está cheia. Gente entra, gente chora, gente tenta chegar perto. O corredor cheio. Os hinos aumentam.
Já não há só um violão — há uma banda. Várias vozes preenchem o espaço.
E ali, eu só consigo fazer uma oração:
obrigado pelo presente

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