Último telefonema

O homem não sabia há quanto tempo estava ali. A escuridão era espessa, quase viva, como se respirasse junto com ele. Um único feixe de luz descia do alto e o prendia ao chão, revelando aquilo que ele já sentia antes mesmo de ver: correntes. Presas aos pulsos, aos tornozelos, ao peito. Pesadas. Antigas. Como se não tivessem sido colocadas nele — mas crescido a partir dele. O som metálico ecoava a cada pequeno movimento.
— Coordenado 45724.
A voz não vinha de lugar algum. Nem de alguém. Era parte da prisão. À sua frente, havia uma mesa simples. E, sobre ela, um telefone. Mudo. Silencioso como o nada. Ele se aproximou, arrastando as correntes. Cada passo era uma lembrança que ele ainda não queria tocar. Parou diante da cadeira. Sentou-se.
Seus olhos vagaram pelo espaço até encontrarem algo estranho no fundo — como um erro no cenário, uma rachadura na realidade: “Quem me livrará do corpo desta morte?” O grito saiu antes do pensamento.
— Quem? — Para quem eu ligo?
Sua respiração falhou, pesada, irregular.
— Faz tanto tempo… — Eu sei que havia alguém… um nome… na ponta da língua… mas eu não lembro.
Ele olhou para as próprias mãos, marcadas.
— Como eu vim parar aqui?
Puxou uma corrente. Ela respondeu com um som seco.
— Eu me lembro.
Fechou os olhos.
— Quebrei a lei. Fui contra a justiça. — Essa… foi quando cobicei. Cobicei até roubar. — E essa… quando menti. Enganei.
A voz caiu.
— E agora… é aqui que vivo. Condenado.
As correntes se ajustaram, como se concordassem. Ele olhou para frente, para além da luz, para além de si.
— Vocês lembram como era ser livre? — Sem condenação nas costas. Sem culpa. — Vocês lembram?
Seus olhos se perderam.
— Eu não.
Respirou fundo.
— Sempre que olho para trás… há outro pecado. Outro erro. Outro peso.
Engoliu seco.
— O primeiro que consigo lembrar… foi a mentira.
E então — o telefone tocou. O som cortou o silêncio como uma lâmina. Ele hesitou. Depois, atendeu.
— Alô…
A voz do outro lado era suave. Confortável. Quase familiar.
— Meu querido descanso… meu travesseiro favorito…
O homem franziu o rosto.
— Quem é?
— Não sou quem você queria. Mas sou quem você sempre precisou.
A voz sorriu.
— A verdade pesa. Exige coragem. Explicação. E você… nunca gostou muito disso.
O homem apertou o aparelho.
— Quem é você?
— Mentira.
O nome caiu leve, como se não tivesse peso algum.
— Lembra? Desde o prato quebrado da sua mãe… até aquele erro no trabalho… a verdade sempre custou caro demais.
Mas mentir… mentir é fácil. O pecado preguiçoso.
O homem fechou os olhos.
— Mentimos tanto… que mentimos até sobre a mentira.
A voz continuava, calma:
— As pessoas dizem que odeiam mentiras. Mas vivem delas. Pequenas mentiras. Mentiras educadas. Elegantes.
Uma memória se abriu.
— Lembra do controle da TV… — disse a voz — você tinha quebrado Sua mãe perguntou… e você mentiu, disse que não sabia aonde estava, jogo fora, mentiu , escondeu.
O homem tremeu.
— Quando cresceu, tentou ser honesto. “Sinceridade é a melhor política.” Lembra? Mas a vida se complicou. E você voltou para mim.
O homem respirava mais rápido.
— Mentiu sobre seus erros. Sobre seu casamento. Camuflou a verdade.
A voz suavizou ainda mais:
— Vamos ser sinceros… quem vive na verdade paga caro.
O homem abriu os olhos, furioso.
— Calada, eu não preciso de você
A voz responde
— não? Para quem você irá recorrer quando precisar fugir, quando não quiser ter trabalho, ou precisar de um alívio.
– você não é a solução, você é só mais um pegado.
— pegado… — a voz riu baixo — palavra pesada demais para uma mentirinha leve.
— Você nunca mentiu para ferir. Só para evitar problemas. E você gostou disso.
O homem gritou:
— CALE-SE!
Continuou a voz
— você não vai me deixa é fraco demais
Gritou o homem novamente, ardendo em irá
— cale-se
O telefone ficou mudo. Mas não por muito tempo. Ele tocou novamente.
Dessa vez, a voz veio diferente. Mais quente. Mais densa.
— Ira… que sentimento curioso.
O homem nem perguntou quem era.
— Ela nasce da injustiça… da humilhação… da ofensa.
A voz cresceu.
— Ira, em si, não é pecado. Mas, quando cresce… vira ódio.
Memórias queimaram no peito dele.
— Lembra da primeira vez? Não uma irritação… mas aquela que queima por dentro… que diz: “Eu fui injustiçado.”
O homem apertou os dentes.
— E então você alimenta isso. Horas. Dias. Até se tornar juiz.
— eu nunca fiz isso
— e todas a fofocas, julgamentos, decretos sobre outra vidas, todas as vezes que não liberou perdão, por raiva, toda a vez que se afastou por ódio.
A voz ficou mais suave
—mas eu não te culpo neste mundo há pessoas injustas demais. Por que amá-las?
A voz ficou dura.
— Mas sabe o que é curioso? Aqueles que tomam o lugar de Deus sobre as próprias vidas.“Eu sou imperdoável.”
O homem congelou.
— Foi isso que você decretou, se no meu indigno de perdão por isso continua aí, esqueceu o caminho de volta pois decidiu sofre sozinho.
O telefone chiou.
— Então fique aí. Você conhece a lei. Pode julgar a si mesmo. — Não precisa do perdão.
O homem sussurrou:
— Ninguém é inocente diante da lei… ela me julgou.
— que deleite, um amante da própria desgraça, uma alma tão orgulhosa, que esqueceu o número do..
O telefone morreu.
Então outra voz surgiu. O telefone nem avia sido desligado, essa era Mais próxima. Quase dentro dele.
— Ah… finalmente.
O homem ergueu a cabeça.
— Quem é?
— Eu só vim parabenizar.
A voz era elegante. Satisfeita.
— O verdadeiro artista dessa história. — Que orgulho.
O homem sentiu o peso aumentar.
— Nem todos conseguem se odiar tanto assim.
A voz caminhava ao redor dele, invisível.
— Continue. Se torture. Negue a si mesmo qualquer amor… qualquer perdão.
— Você é bom demais para isso.
O homem tremia enquanto falava.
— A lei me condena! Eu estou preso!
— Claro. — a voz respondeu — você já ocupou o lugar da cruz.
— Julgou tantos… que esqueceu quem é o juiz.
Homem grita
— não sou fariseu, não vou viver como se não existe se pegado.
Orgulho
– sim, sim, bravo, se você não se punir ningu vai se perdoar, sofra com seus próprios erros, arrependimento, perdão? Coisa de fracos, você é forte.
O condenado recua, a voz vai bora antes de qualquer argumentom
E então — tudo ficou quieto.
Se controlou para não chorar, puxou as correntes, andou pela sala, ao pouco tentou romper as correntes na força, não conseguiu. Até que algo mudou.
O ar ficou mais frio. Mais próximo. Mais íntimo.
— Você não se sente em casa?
O homem virou devagar.
— O que é você?
A resposta veio como um abraço que sufoca.
— Oh, querido… você sabe.
As correntes se moveram sozinhas.
— Eu sou sua culpa.
O homem caiu de joelhos.
— Não chore… você está seguro aqui.
A voz era doce.
— Longe do mal. Perto de Deus.
Ele levantou o rosto, com dificuldade.
— Essa dor… não é de Deus.
A culpa sorriu.
Claro que é. O que pode ser mais cristão… do que se martirizar? Viver acorrentado. Se afastar de todos.
O homem respirava com dificuldade.
Tenho certeza… que era isso que Deus queria.
Algo quebrou dentro dele.
— Não…
Ele tentou se levantar.
— Eu não posso viver assim.
As correntes apertaram.
— Chega. — disse a culpa. — Fique. É mais seguro.
O homem chorava agora.
— Como eu me enganei tanto?
Olhou para cima, para além da luz.
— Como eu acreditei que minha culpa era maior que a graça?
Sua voz falhou.
— Como eu esqueci… a quem devo lançar minhas fraquezas?
Não em mim… mas em Cristo.
As correntes tremeram.
Como eu me livro disso?
A resposta veio firme:
— Não se livra.
A culpa apertou mais.
— Eu estarei com você sempre.
O homem fechou os olhos.
E então, pela primeira vez, não falou com a prisão. Nem com as vozes.
— Pai… — Me ajuda a lembrar. — Me ajuda a me levantar. — Me ajuda a sair.
E então — um estalo.
As correntes pararam
O silêncio agora ecoava na sala.
O homem abriu os olhos, ofegante.
Olhou para as mãos.
Levantou-se devagar.
— Eu lembrei.
Respirou fundo.
— Eu não posso continuar assim.
Olhou ao redor.
A prisão já não parecia tão sólida.
Falou ainda eu oração
— Condenado… condenando todos… preso nos meus próprios erros…
Seus olhos brilharam.
— Agora eu sei… quem é o justo juiz. A verdade. E a vida.
Ele olhou para frente, como se visse além daquele lugar.
— Mas, sozinho… eu não consigo.
Sua voz se quebrou, mas não caiu.
— Peço perdão. — Pelo meu orgulho. Meu ódio. Minhas mentiras. — E cada pecado que me trouxe aqui.
Então, quase em súplica:
Seus olhos caíram sobre a mesa.
O telefone ainda estava lá.
Ao lado dele — uma moeda.
A voz da prisão voltou, mas já não parecia a mesma.
— Você tem direito… a uma ligação.
O homem olhou para o telefone.
Dessa vez — ele sabia para quem ligar.
E a escuridão não era mais o fim.

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sou natanael

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Sou escritor e apaixonado por transformar ideias e sentimentos em palavras. Neste espaço, compartilho textos que exploram emoções, conflitos e histórias do cotidiano de forma simples e intensa. Aqui, a escrita é um convite para sentir, refletir e se conectar.

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