
Que o Senhor seja louvado pela oportunidade de entrevistar um missionário do projeto Cristolândia, projeto afiliado à junta de Missões Nacional da Convenção Batista. O projeto acolhe e ajuda moradores de rua e dependentes químicos situados em São Paulo (capital: Santana, Parelheiros, Suzano, Praia Grande, São Vicente, Presidente Prudente), além de unidades no Rio de Janeiro, no Distrito Federal, em Goiás, na Bahia e no Espírito Santo (Linhares). Esse lindo projeto tem 16 anos tirando homens e mulheres da Cracolândia e mostrando-os a Cristo. Hoje, tenho a grande oportunidade de entrevistar Thales Emanuel, missionário da Cristolândia em São Paulo.
O que o levou a servir no campo Cristolândia?
Em 2015, conheci presencialmente o projeto da Cristolândia, em Pernambuco. Ao ver aquele cenário, as pessoas sendo cuidadas, amadas e, ao mesmo tempo, enxergar suas necessidades, Deus começou a me incomodar a sair da minha zona de conforto para estender as mãos e levar o evangelho àquelas vidas tão necessitadas e carentes.
No ano de 2016, ingressei como missionário radical, dedicando um ano da minha vida integralmente ao cuidado dessas pessoas, levando o evangelho do Senhor Jesus Cristo, que é o poder para salvar e transformar vidas. Foi um momento abençoador, um divisor de águas na minha história. Vivi na dependência do Senhor e não me arrependo, porque pude ver o poder e os milagres de Deus acontecendo todos os dias.
Qual é a sua história? Como o senhor começou a fazer parte do ministério?
Nasci em um lar cristão e sempre tive uma chama ardente por missões. Gostava de participar de viagens missionárias, mas, em determinado momento da minha vida, ingressei na carreira profissional e me tornei militar do Exército. O chamado missionário acabou ficando um pouco de lado.
Em 2015, Deus providenciou que eu conhecesse a Cristolândia em Pernambuco. Ao ver aquele cenário, o Senhor me chamou e me incomodou a ajudar aquelas pessoas. Em 2016, abri mão de tudo o que estava fazendo para servir integralmente no campo missionário. Passei um ano como missionário radical, vivi o processo de formação missionária e, hoje, sou missionário efetivo da Junta de Missões Nacionais, coordenando o projeto da Cristolândia no estado de São Paulo.
Conheci minha esposa no campo missionário, ainda em Pernambuco. Começamos a trabalhar juntos no ministério, passamos por Brasília e, no ano de 2024, chegamos a São Paulo. Estamos nessa grande missão de coordenar esse projeto que tem abençoado, transformado e salvo vidas para a glória de Deus.
Qual foi a sua reação na primeira vez que viu a Cracolândia?
A minha reação foi de espanto. É um cenário de destruição, de vidas devastadas pelo pecado. Aquilo me incomodou profundamente, pois Deus não criou o homem para viver naquela condição. São pessoas perdidas, caminhando para a condenação, mas sabendo que o Senhor pode transformar qualquer realidade.
O que impulsionou meu coração foi o desejo de, enquanto há tempo, levar o evangelho para que essas pessoas conheçam a verdadeira esperança em Jesus Cristo, que transforma vidas.
Qual é a maior dificuldade de trabalhar com pessoas em situação de rua?
A maior dificuldade é ver o quanto o pecado aprisiona e leva essas pessoas ao fundo do poço. Muitas vezes, elas sabem que aquilo está destruindo suas vidas, mas não têm forças para sair sozinhas.
O único que pode libertar é o Senhor Jesus Cristo. No entanto, elas precisam desejar dar esse passo. Outra dificuldade é que, muitas vezes, há ingratidão. Estamos ali para amar e cuidar, mas nem sempre isso é compreendido. O inimigo tenta confundir e tirar o foco do real propósito: conhecer e permanecer no Senhor Jesus Cristo.
Qual experiência mais o marcou nesses anos?
Uma das experiências mais marcantes foi quando eu estava questionando a Deus o motivo de estar naquele lugar. Em meio a esse questionamento, um dos nossos acolhidos começou a compartilhar seu testemunho.
Em determinado momento, ele olhou para mim e disse: “Eu agradeço a Deus pela sua vida, porque eu estava na rua, sem esperança, e Deus enviou você e outros para que, por meio da vida de vocês, eu pudesse conhecer um Deus que pode me libertar e transformar. Você é resposta.”
Naquele instante, entendi que Deus estava usando minha vida como resposta à oração daquele povo. Foi um momento que marcou profundamente meu chamado.
O senhor já teve alguma experiência ruim?
Não diria que tive experiências ruins, mas existem momentos difíceis. É triste ver alguém que estava caminhando bem, mas decide interromper o processo antes do tempo, buscando independência financeira prematuramente. Muitas vezes, acabam recaindo e retornando ao acolhimento.
Isso nos entristece, pois mostra o quanto o ser humano é vulnerável sem a presença constante do Senhor. O campo missionário tem desafios, mas Jesus nunca prometeu que seria fácil. Ele disse que no mundo teríamos aflições. O que nos sustenta é ver o poder de Deus e vidas transformadas para Sua glória.
Como funciona a reabilitação na Cristolândia?
A Cristolândia oferece acolhimento a pessoas em vulnerabilidade social. Diariamente, realizamos atendimento social no centro de São Paulo, com café da manhã, banho, troca de roupas, corte de cabelo e almoço. No entanto, nossa principal missão não é apenas assistencial, mas espiritual: oferecer o evangelho de Jesus Cristo.
Antes das atividades, há um momento de ministração da Palavra. Aqueles que desejam ser acolhidos passam por uma triagem com a equipe técnica. Estando aptos, são encaminhados para uma de nossas unidades, onde permanecem por um período de um ano.
Os primeiros 30 dias são de triagem interna. Depois, inicia-se a primeira fase, com duração de seis meses, focada na desintoxicação e discipulado intensivo. Há estudo bíblico, musicalização, atividades internas, coral, visitas de igrejas e familiares, além da regularização de documentos e estudos.
Após essa etapa, seguem para a segunda fase, de ressocialização, com duração de cinco meses. A partir do décimo mês, iniciam visitas mensais às famílias. Também são preparados para o mercado de trabalho, com elaboração de currículo e inserção profissional.
O projeto é totalmente gratuito e sustentado por igrejas parceiras que contribuem para que o evangelho alcance vidas necessitadas.
Quais outros projetos ou métodos de ajuda existem?
A Cristolândia também oferece suporte às famílias, auxiliando no processo de reinserção do acolhido e na prevenção de recaídas. Após o término do programa, há acompanhamento e incentivo para que o ex-acolhido esteja vinculado a uma igreja, vivendo em comunhão com Deus.
Como vocês lidam com a intolerância nas ruas e nas atividades diárias?
Muitas vezes ouvimos de algumas pessoas que aqueles que estamos ajudando não merecem esse cuidado. No entanto, não nos deixamos abalar por esse tipo de comentário. O nosso foco é cumprir aquilo que Deus nos ordenou: amar o próximo como a nós mesmos. Quando estendemos as mãos para essas pessoas, é como se estivéssemos fazendo isso ao próprio Cristo. Por isso, independentemente das críticas, sabemos que estamos ali porque Deus nos enviou com uma missão: levar aquilo que temos de mais precioso, o Evangelho da salvação.
E como têm sido as atividades de vocês desde as recentes ações de dispersão das pessoas em situação de rua, especialmente nos locais onde normalmente eram realizados evangelismos e a entrega de alimentos?
“Em 2025, ações policiais intensificadas na Cracolândia de São Paulo culminaram no esvaziamento definitivo da região, com destaque para a desocupação total da Rua dos Protestantes em 10 de maio de 2025 e o anúncio oficial o fim da aglomeração após 30 anos, após a operações integradas entre Governo do Estado, Prefeitura e forças de segurança”
De fato, hoje já não existe mais aquela grande concentração de pessoas que caracterizava a chamada “Cracolândia”. Porém, ainda existem milhares de pessoas vivendo nas ruas, agora espalhadas em grupos menores. Por isso, o trabalho continua com muita intensidade. Não podemos parar, pois ainda há muito a ser feito.
Que mensagem o senhor deixaria para quem deseja servir?
Existem muitas pessoas nas ruas clamando por uma oportunidade. Você pode ser a resposta de Deus para essas vidas.
Nossa maior necessidade hoje é de homens e mulheres vocacionados, dispostos a amar, cuidar e discipular. Rogamos ao Senhor da seara que envie mais trabalhadores.
Quem sabe Deus esteja tocando seu coração para dedicar um ano da sua vida como missionário radical na Cristolândia São Paulo. Você será instrumento de transformação, mas também será profundamente abençoado ao ver o poder de Deus agir diariamente.


Deixe um comentário