
Essa entrevista foi feita graças a disponibilidade do missionário Moacir Carlos, que coordena um projeto de ministração e estudo bíblicos nós precidios, e leva a mensagem de Deus aos cativos, agradeço muito a Deus e a ele por essa oportunidade.
Entrevistador: Meu irmão, conte um pouco sobre o senhor, sobre o que o senhor faz, sobre a sua missão.
Ah, qual é a minha missão? É o ide, Amar, semear e multiplicar, né? Esse é o meu ID. Estou falando com Natanael. Tudo bom? Que bom falar contigo.
A minha missão é a Capelania Prisional, onde hoje sou membro da Primeira Igreja Batista de Balneário Camboriú. Tenho o apoio do pastor Luiz Fernando, da Igreja de Bacacheri, onde ele é pastor da Junta de Missões Nacionais. Fizemos uma conexão aqui no norte de Santa Catarina.
Ele está lá em Curitiba, na igreja, como eu falei agora, e seguimos em frente fazendo esse trabalho aqui no norte de Santa Catarina, em vários presídios. Em Santa Catarina, temos 54 presídios, onde quase 30 mil pessoas estão atualmente internadas. Fazemos esse trabalho para poder avançar, como missionários, levando palavras aos cativos. Usamos muito Mateus 28, que diz: “Estive preso, e vocês vieram me visitar.”
Esse é o meu trabalho aqui. Hoje estou coordenando junto com a Primeira Igreja Batista de Balneário Camboriú. Começamos em 2019, logo após a pandemia.
Ficamos parados até 2021, depois começamos. Em 2020, começou um trabalho no presídio, chamado Complexo Penitenciário de Itajaí, que conta com presídio, penitenciária, semiaberto e presídio feminino, com quase 3.500 pessoas nesse complexo.
Além disso, contamos com mais 1.500 servidores públicos, policiais penais. Iniciamos um trabalho e, para a glória e honra do Senhor, começamos a divulgar o que precisávamos avançar.
Em cada cadeia, cada penitenciário poderia ter uma igreja. A igreja não é de tijolo; somos nós. Precisamos discipular esses homens através da Capelania Prisional Batista, com o apoio da Junta de Missões Nacionais.
Hoje temos 10 capelanias espalhadas aqui no Norte de Santa Catarina e já alcançamos 11 presídios. Posso citar algumas, se não fugir da memória. Começamos aqui em Balneário Camboriú, com a Capelania Prisional Batista da Primeira Igreja Batista. Depois, em Chapecó, com a Primeira Igreja Batista de Chapecó. Também temos a Capelania Prisional de Carazinho, a Capelania Prisional na Igreja Batista de Itapema, a Capelania Prisional na Igreja Batista da Barra Velha, a Capelania Prisional na Igreja de Indaial e a Capelania Prisional na Igreja de Blumenau.
Este ano, já temos a meta de incluir mais três presídios em Florianópolis. E aí começa a história, né? Temos muitas histórias para contar,
Entrevistador: como surgiu o desejo, esse chamado para a Capelania Prisional?
Muito bom. Sou carioca, 100% carioca, mas já sou convertido há quase 28 anos e vim do estado do Rio de Janeiro, e estou morando aqui em Balneário há 11 anos. No Rio de Janeiro, era membro na fé da Igreja Presbiteriana. Lá tinha um projeto das igrejas presbiterianas, e o pastor, que foi meu pai espiritual, percebeu o dom de evangelização que temos e a importância de sair da redoma. A Igreja Presbiteriana, no Rio de Janeiro, estava passando por um caos, devido à grande violência. Para você ter noção, atualmente, existem cerca de duas mil favelas em torno do estado do Rio de Janeiro.
Aqui em Balneário Camboriú, quase não temos favelas. Há uma comunidade um pouco mais desfavorecida, mas sem a violência que vemos no Rio. No Rio de Janeiro, houve até crimes dentro da igreja. No parque da igreja, havia pessoas morrendo, assaltando carros, e os cultos passaram a ser realizados pela manhã devido à falta de segurança.
Partindo do coração do pastor Antônio Carlos, decidimos sair da redoma, levando a igreja para fora e anunciando, fazendo diferença na localidade da Barra da Tijuca, no Rio. A partir disso, surgiu um slogan que gostamos: “O mal prevalece quando os justos se calam”, que é uma citação do filósofo francês Edmund Burke.
Começamos a dar voz a quem não tem, trazendo visibilidade aos invisíveis. Muitas vezes, no confronto com a polícia e milícias, quem morria era o trabalhador, filho do trabalhador. Muitas vezes, o barulho era de dez pessoas em uma comunidade de seis mil, enquanto em uma favela de um milhão morriam inúmeras pessoas que não tinham culpa nenhuma.
Recentemente, ouvi um noticiário do Rio de Janeiro sobre uma moça que, ao deixar os filhos para fazer compras, foi vítima de um tiroteio. Começamos a ir para as ruas, anunciando e cobrando dos governadores, o que deu início ao trabalho de capelania no meu coração.
Quando vim para cá, já fazia visitas no Rio de Janeiro, nos presídios e em casas de recuperação terapêutica, onde já realizávamos um trabalho. Chegando aqui, o meu filho mais velho, Tiago, que tem 17 anos e é deficiente auditivo, estava em busca de desenvolvimento. Quando saí do Rio, procurava um lugar melhor para ele e aqui em Santa Catarina sabíamos que as condições eram melhores.
Começamos a frequentar a Primeira Igreja Batista, onde o culto era em Libras, o que foi muito importante para o meu filho. Não carrego a placa da igreja; carrego Jesus. Comecei a conhecer a Igreja Batista, fiz a integração e entendi o que significava ser Igreja Batista. Na integração, compreendi como funciona, qual é o espaço, quais as doutrinas. Estudei bastante calvinismo na época em que estava no Rio de Janeiro.
Foi aqui que o pastor Silas viu a necessidade de um trabalho, pois não havia capelania prisional. O tempo passou, e o pastor Luiz Carlos, da Junta de Missões, falou sobre o sistema prisional. Então, surgiu para a gente fazer um trabalho, pesquisamos como andava a capelania dentro dos presídios e percebemos que lá não havia Igreja Batista.
Nós, da Primeira Igreja Batista de Balneário Camboriú, partimos para formar um grupo de líderes vocacionados para entrar e visitar os presídios. Anteriormente, era comum ver apenas homens de cabelo branco envolvidos nesse ministério missionário.
Muitas vezes, buscamos missões fora do país, mas precisamos levar esperança a uma população carcerária de cerca de 30 mil homens, que estão sem esperanças e sem saber como será o amanhã. O que fazemos é trazer as boas-novas do evangelho, que é esperança para todos. A graça do Senhor nos alcança e começamos hoje a pregar, e onde eu falo muito, para nossa igreja, precisamos anunciar o evangelho.
Tenho uma frase que ouvi de um pastor há muitos anos: todos nós nascemos mal, adâmicos. Temos a carne a nos dominar, e precisamos de alguém que nos ensine a fazer o bem. O melhor conhecimento está em ser bom, conhecendo a palavra do Senhor, estudando a Bíblia. Temos a meta dentro dos presídios de Santa Catarina, que é conhecer a Deus, estabelecer uma conexão com a prisão e fazer uma aliança mundial.
Hoje, Natanael, é admirável saber que poucas igrejas batistas no Brasil conhecem o trabalho da Capelania aqui no Norte e como ela avançou. Hoje somos conhecidos fora do país, em Guatemala, Argentina, Estados Unidos, Filipinas, Áustria, pelo trabalho da Capelania, junto à Aliança Prisional, discipulando e formando discípulos, não apenas na igreja, mas também entre os detentos, que um dia retornarão à sociedade após cumprirem suas penas, podendo olhar para o céu e dizer que agora estão livres diante do Senhor.
Entrevistador: Irmão, quais são os maiores desafios de pregar nos presídios?
Olha, é muito interessante a sua pergunta e posso te responder. Esses 10 anos aqui fazendo o trabalho da Capelania, percebo que em cada presídio existe um diretor e, muitas vezes, trazemos o trabalho para os diretores e explicamos qual é a nossa função ali. Primeiro, é discipular; é trazer a mensagem da Bíblia para que haja salvação para todos que estão perdidos.
A dificuldade, às vezes, é com os próprios diretores. Por exemplo, temos um material de discipulado e queremos distribuir Bíblias, contando com apoio da Sociedade Bíblica do Brasil, aqui do Paraná, mas muitas vezes essas Bíblias não chegam às mãos dos internos, o que dificulta um pouco o trabalho.
É uma consequência do sistema de cada presídio. Nem todos são assim. Em Chapecó, temos um trabalho maravilhoso com a Canadir, que leva não só a palavra, mas todo o material dos nossos parceiros, livros da Ultima, e em Iperacuara, em Curitiba, também temos boas entradas.
Aqui em Santa Catarina, o Presídio Feminino enfrenta alguns desafios. Não lutamos contra carne e sangue, mas contra quem está à frente. Temos orado bastante para que o trabalho seja progressivo e tenha impacto. Não adianta estar no presídio pregando apenas palavras; em um ou dois meses, a pessoa pode esquecer.
Confesso que, muitas vezes, também esqueço de sermões após um mês. Quando fazemos um curso bíblico, onde a interna fica sentada e a ensinar quem é Deus, que Deus é amor, que Deus é misericórdia, que Deus é santo e que Ele é soberano, isso faz uma diferença imensa. Nosso Deus é misericordioso.
Essa é uma dificuldade, às vezes não das internas, mas do que eles chamam de religiosidade. Estamos ali como mensageiros de Deus, como sacerdotes e, embora saibamos que precisamos respeitar nossas autoridades, somos servos supremos. Colocamos isso em oração, clamamos, já melhorou um pouco, mas é preciso avançar nesse sentido.
Eles estão ali porque é uma grande dificuldade. Às vezes, o agente penal pensa que estamos lá apenas para aqueles internos. Na verdade, estamos ali para todos, e também oramos pelos agentes. Fazemos café, levamos palavras de carinho para eles, pois o índice de pessoas dentro do presídio com pensamento suicida é muito alto, principalmente na área penal. É triste saber que eles também precisam de apoio. Este trabalho requer bastante empatia, e precisamos ter oração.
Essa é uma das dificuldades. Também enfrentamos desafios com as igrejas, que muitas vezes não divulgam os testemunhos que temos. Falar é importante, mas é fundamental levar e compartilhar os testemunhos que temos.
Entrevistador: O senhor poderia contar qual foi a história que mais te marcou dentro dos presídios?
Aí você me quebra, pois são tantas histórias. Uma que me marcou bastante foi há pouco tempo, em que recebemos a Prisão Aliança, que é uma parceira nossa que traz material. Transmitimos um curso voltado principalmente para os presídios, em vários países, e começamos a realizar o curso “Quem é Deus”. Como eu falei no início, Deus é bom, Deus é misericordioso, Ele é santo, soberano e amoroso.
Iniciamos um curso, dividindo os internos em salas de aula com cerca de 20 cada. Temos um estudo sobre Deus antes de pregar. Faço um sábado, a outra igreja no próximo, assim vamos dando o curso até chegarmos a temas mais complexos.
Na primeira semana, nos identificamos, falamos quem somos e de onde viemos. O material animou todos os alunos. Em uma turma de 20 alunos, um deles disse que na cela onde estava havia apenas oito e dois deles assistindo à aula. Ele levou a apostila e colocou-a encostada na cama. Um dos outros jovens que não estava participando perguntou: “O que vocês fazem lá? Ficam ouvindo lorota?”. E ele respondeu: “Não, estamos fazendo um curso bíblico que é maravilhoso. Se você entender o que isso significa, sua vida pode mudar.”
Para nossa surpresa, esse rapaz leu que Deus é misericordioso. Quando ele começou a compreender os princípios, surgiu uma mudança. Ele estava em uma cela com aquele ânimo sufocando. Quando li o material da Prisão Aliança, um dos tópicos falava sobre a misericórdia de Deus.
O jovem começou a ler e, quando entendeu que Deus era misericordioso, correu para o curso. Ele disse que, ao deitar na cela, sentia algo o sufocando. Ele tinha um pavor e acordava toda noite com essa sensação. Quando leu sobre a misericórdia do Senhor, percebeu que seu filho havia sido enviado à cruz para tirar nossos pecados.
Ele entendeu que, se se arrepender, poderia ser perdoado. É marcante saber que, ao carregar a culpa achando que não há mais jeito, vem a palavra e Jesus se torna a luz no fim do túnel.
Para nós, isso é impactante. Tenho muitos outros testemunhos, mas essa foi uma grande experiência que vocês podem saber. Estou certo de que este é o lugar certo, na hora certa, e precisamos continuar. Faço um apelo a você que ainda não conhece. Se quiser, procure sua igreja, fale com seu pastor, me ligue, vocês terão a oportunidade de receber um treinamento e estar preparados, sempre contando com o poder do Espírito Santo, pois nós não temos poder para mudar ninguém.
A palavra de Deus tem poder para transformá-los. Ele pega o vaso, quebra-o e faz um vaso novo, para encher do Espírito dele. Amém?
Testemunho adicional contado após a entrevista:
Em novembro, visitamos o presídio feminino do Complexo Penitenciário de Itajaí com os missionários da Prison Alliance. Foi um momento poderoso! Isabela estava presa no presídio feminino de Itajaí, aguardando seu advogado e os processos judiciais, mas naquele momento ela se entregou à fé, e houve uma virada incrível em sua vida.
Uma semana depois, foi comprovada sua inocência! Isabela foi à Igreja Nações dos Atletas, em Blumenau, aceitou Cristo e foi batizada. Hoje, ela é irmã na igreja.
Entrevistador: Para não ocupar muito do seu tempo, pastor, gostaria de deixar uma mensagem, um recado ou alguma reflexão?
Claro, mensagem e recado. Natanael já tinha me procurado há algum tempo; eu estava muito atarefado perto do final do ano. Fiquei muito feliz quando Natanael me ligou ontem, desejando falar comigo; pensei até que ele tinha desistido de mim. Peço perdão, Natanael!
Quero dizer às igrejas espalhadas pelo Brasil: missões começam de fora para dentro. Meu irmão, não sei sua vocação, nem o desejo do seu coração, mas espero que você possa ser um sacerdote do Senhor onde quer que coloque os seus pés.
Seja um discípulo do Senhor. Você pode ser capelão dentro de sua casa, no seu trabalho, na sua escola, entre aqueles que precisam, levando a palavra do ID, que é anunciar o evangelho, enquanto há tempo.
Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça. Aquele que tem o coração voltado, que permita que Deus trabalhe. É como eu digo: Deus trabalhou por nós, Deus trabalhou em nós e Deus trabalha através de nós. Devemos ser pontes neste mundo.
Estamos agora no período de carnaval, uma festa mundana que distancia a carne do Espírito. Mas, após esses quatro dias, o que resta? É a palavra de consolo e amor, que é eterna. Nossa alegria não se encontra nos tambores; nossa alegria vem do Senhor, que nos renova todos os dias. A alegria do Senhor nos renova constantemente.
Portanto, igrejas de Jesus, igrejas batistas e aquelas espalhadas pelo mundo, vamos cumprir o ID. Vamos avançar! Tudo para a glória e honra Dele. Amém?
Entrevistador: Muito obrigado pela sua disponibilidade.
Agradeço de coração também por não ter desistido de mim.

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