Cavalo no peito


Em dias de pouca fé, como costumava dizer meu avô, um “cavalo” galopava dentro do meu peito. As mãos suavam e as paredes pareciam gritar comigo. Minhas mãos agarravam o peito, e meus lábios cantarolavam o Salmo 91, com alguns tropeços e certos erros que, de tanto repetir, passaram a fazer parte do texto.

Entrelaçava os dedos dos pés e sentia um frio gelado no estômago, que se dissipava após duas ou três repetições. Quando voltava a pensar, meu corpo se encontrava embriagado por essas inquietações.

Minhas tias sempre diziam:

— Procura um médico, menino. Alguém que possa entrar na sua mente e abri-la, ajustar os parafusos e remover o macaco…

Um macaco que, estranhamente, parecia se sentir em casa.

Minha mãe rebatia, citando três textos bíblicos e outros dois que só ela conhecia:

— Está escrito… e também está escrito…

A discussão sempre terminava com o olhar de juiz da minha avó, que não gostava de bate-boca, nem de médicos.


O tempo deu seu corre e, cansada de tanto “fala-fala”, minha mãe me levou a um médico em um lugar não tão perto de casa.

Era um senhor chamado Sérgio. Um nome que nunca gostei, pois soava falso. Por isso, o chamava de “seu senhor” ou “bom velhinho”, porque me lembrava vagamente do Papai Noel.

Ele me fez uma série de perguntas, uma após a outra, dando voltas e mais voltas.

Quando minha tia Rosa perguntou o que havíamos conversado, eu disse:

— Nada.

Pois não queria repetir todas aquelas perguntas.

Na semana seguinte, ele me ensinou algumas ferramentas diferentes das que minha avó usava: controlar a respiração, encontrar um lugar tranquilo, manter-se relaxado e repetir para si mesmo que estava seguro.

Algumas dessas coisas irritavam um pouco a minha avó.

— Essas pessoas precisam de Jesus — ela dizia.

Então prometi orar e repetir alguns salmos, e ela sorriu.

O bom velhinho também me ensinou a evitar o estresse, recomendando ouvir música e correr.

Algumas partes eram chatas, pois eu esperava encontrar um macaco e alguns piolhos na minha mente, como um dos garotos da minha rua havia comentado.


Como fui encorajado, bebi coragem e coloquei em prática o que aprendi.

Em um dia ensolarado, lindo — péssimo dia para ir à escola —, a professora Tai começou a distribuir a prova de geografia da semana passada.

Fiz a prova junto com Emile, uma menina que sabia de tudo.

Enquanto a professora distribuía as notas, pensei muito em não pensar, mas acabei pensando. Pensei em todas as possibilidades:

E se eu tirasse uma nota baixa?
E se minha mãe brigasse comigo?
E se Emile chorasse?
E se eu repetisse de ano?

Seguindo a recomendação do seu senhor, fechei os olhos e comecei a repetir que estava tudo bem, controlando a respiração e tentando me manter confortável.

Porém, o “cavalo” não se aquietava. Galopava, se agitava e resmungava.

Demorou um pouco. Foi hiperestranho, mas o frio foi embora.

Quando abri os olhos, percebi que a professora e os outros estavam todos me encarando.

André e Rian estavam rindo. Emile parecia preocupada. O resto da turma tinha uma expressão neutra.

Claro, a professora logo me mandou para a diretoria, onde levei uma bronca por obedecer ao médico.

Decidi, naquele momento, que nunca mais ouviria médico algum.

No entanto, chegou minha mãe e falou:

— Pare de asneira.

Explicou o ABC a todos e logo fui para casa.


Continuei indo ao médico por um tempo.

Ele era realmente um bom velhinho, sempre me dando balas e doces quando o visitava e sempre sorridente. Acredito que ele não tinha muitos amigos, pois sempre estava no mesmo lugar e nunca o via com ninguém.

Ele me dava conselhos sobre uma alimentação saudável e controle de pensamentos, sempre com frases de autoafirmação e trechos bíblicos.

— Você está seguro. Respire.

Com isso, memorizei muitas coisas, coisas que nem seu Zé, o pastor, sabia.

Tornei-me um cantor de chuveiro e um orador político, sempre preparado para qualquer conversa.

De hora em hora, recebia um:

— Cala a boca.

Mas eram ordens médicas.


O tempo deu seu corre, e as paredes e eu nos tornamos amigos.

O “cavalo” só aparecia em dias de prova, mas logo ia embora, pois não perdia tempo.

Minhas tias e minha mãe continuavam a se reunir para comer acarajé e falar da vida de outras pessoas, sempre de maneira bem crente.

Elas discutiam as histórias alheias com o fervor de um político bonzinho.


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sou natanael

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Sou escritor e apaixonado por transformar ideias e sentimentos em palavras. Neste espaço, compartilho textos que exploram emoções, conflitos e histórias do cotidiano de forma simples e intensa. Aqui, a escrita é um convite para sentir, refletir e se conectar.

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