A notícia da raposa

Porém, ele lhe disse: Um certo homem fez uma grande ceia, e convidou a muitos.
E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos convidados: Vinde, que já tudo está preparado.
Lucas 14:16 

Eu não sei exatamente como aconteceu; como um infortúnio ataque, como um bom susto depois da terceira página daquele livro velho de canto de mesa.
Deitada no canto do vasto pomar, abraçada pela sombra daquela figueira, ao lado do triste muro de tijolos e raízes secas. Perplexa com o último parágrafo, embriagada por aquele detalhe sujo que mudaria toda a história.

Quando me aparece aquela inquieta raposa de pelos vermelhos, o rabo como em chamas. Ela carregava algumas manchas de pelos esbranquiçados, de uma vida bem casta. Ela parou, balançou a cabeça à procura de algo. Porém, logo parou e se deitou na desconfortável grama.

— Quem ou o que procura? — pergunto, arrastando minha atenção para longe do livro. Porém, logo retorno; a história estava boa demais para perder uma única linha.
— Venho trazer, para alguém, uma notícia, algo que não pode ser deixado para depois.
— Uau, o que seria? — respondo em tom de acaso.
— Uma notícia, algo grandioso acaba de acontecer.

Meu olhar, fixo nas linhas, roubou as letras do murmúrio que saiu como resposta.

— Uma mensagem vinda direto do relojoeiro.

Minha atenção segue por um segundo à raposa, que continuou com seu monólogo.

— A peça que faltava finalmente apareceu; o relógio voltou a funcionar, contando os dias para o grande banquete.
— Mas quem seria tão importante para ouvir essa mensagem? Olhe ao seu redor, aqui só tem grama e pasto. Para quem vai entregar tal “grandiosa notícia”? As vacas?
— Talvez a senhorita venha a ser a remetente desse convite.
— Não sei qual seria a vestimenta da ocasião; nesse momento, o livro já havia sido deixado completamente de lado.
— Vestimentas brancas como a seda.
— Impossível! Olhe a minha situação; temo não ter roupas para tal evento.
— Ah, mas não se preocupe, siga-me e arranjarei roupas novas, do linho mais fino que possa imaginar.
— Quem é o anfitrião do evento? — pergunto, colocando-me de pé. Quem seria o agraciador de tal luxo, a alguém tão comum?
— O relojoeiro, claro, o mecânico do relógio, o preparador da data.
— E o que o relojoeiro comemora? Anda, me diga, o que alguém tão grande teria a comemorar com um “ninguém”? O que seria?
— Uma ceia.
— Uma ceia?
— Uma grande ceia, com todos os seus bons amigos.
— Nunca o vi.
— Mas já ouviu falar?
— Sim, claro, uma vez ou outra. Nesse momento, o céu muda como se contasse algo.
— Ande, se apresse; o grande banquete se aproxima — diz a raposa já em partida.

O fluxo da chuva já tinha mudado o cenário do pomar. Corri para a casa, seguindo o caminho, beirando as árvores. O livro, há pouco tão cativante, ficou com a chuva, minha mente vidrando em outro Livro. Corri para casa, chocando-me contra a porta e adentrando a sala de estar.

Perante a grande prateleira de livros, peguei o último livro da estante, o empoeirado, o que eu já havia esquecido, um livro velho de histórias velhas. Releguei-o para o canto, sentando-me na madeira fria do chão da casa, e brinquei da tolice de dar ouvidos a um peregrino de sonhos e ideias tolas.

— Bom, o que tem demais, uma lida?
— O quê? Agora vai se prender a tolices?

De tempos, já conhecia a voz do gato de voz açucarada, e pelos como de sombra, e olhos verdes rasos, meu fiel colega de leituras, que vinha se esgueirando pela estante, rodeando entre os livros.

— Não me parece mal ler, gostava das histórias contadas.
— As histórias que te deixavam triste — disse o gato, pulando da estante para o sofá, esticando-se pretensiosamente.
— Não me deixavam triste, só eram difíceis e eu desisti, mas havia algo bom ali.
— Você já fracassou, esquece isso e vamos ler o próximo livro.
— Mas que estranho, você me negando uma leitura!
— Livros como esse só farão você se sentir mal. Deixa, esquece, ignora! — O gato pulou em cima do livro, deitando a cabeça nas minhas mãos molhadas da chuva.

— Resmunga. Quero saber sobre o relojoeiro, ele vai dar um banquete, você poderia ir. Trago o livro para os meus braços, pronta para levantar.

— Minha cara, eu tenho para você dois livros: um fala sobre vida, prazer, sorte, riqueza e luxo. E o outro? Termina em morte. Qual você prefere?

— Realmente não me parece uma escolha tão difícil.

— Exatamente — o gato roda em seus pés, quase encruzilhando. Não é difícil entender; não é seu tipo de leitura, você não cabe nesse lugar.

— Vamos, venha, esqueça isso — diz o gato enquanto deita a menina e a põe a dormir.

— Mas o relojoeiro disse…

— Shiii, descanse.

Mas, de repente, o livro há pouco aberto brada:

“Todo aquele que quiser vir até mim, tome sua cruz e siga-me.”

— Cale-se! — grita o gato.

Ela levanta, agarra o livro e lê:

“Bem-aventurados os pobres em espírito,
pois deles é o Reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram,
pois serão consolados.
Bem-aventurados os humildes,
pois eles receberão a terra por herança.”

O gato, em um canto, observa.

— Onde estão?

— Você lembra?

— Vou lembrar do quê?

— Disso — diz o gato, trazendo um livro da biblioteca, um livro fino de capa aveludada, simples e delicado, porém sujo.

— Tire isso daqui! — diz, voltando-se ao gato.

— Não era você que se acha digna de estar perante o relojoeiro? Alguém tão puro não deveria portar manchas. “Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente. Melhor seria que você fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.” Se bem me lembro, era algo assim.

Então, ela para, presa naquele livro, começa a folheá-lo, e se entristece a cada página.

— Tem razão, eu fui tão fraca, tantas vezes.

“Pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.”

— Que costume irritante! Já disse, cale-se! — grita novamente.

— Não, ainda é tempo!

— Aquele que não tem sabor só serve para ser jogado ao chão e pisado — aponta o gato.

— Onde abundou o pecado, superabundou a graça — rebate a garota.

Ela volta a ler, dessa vez mais focada, e com mais sede:

“Pois eu sou a porta das ovelhas, e o Pai ama, pois eu as levo até o Pai.”

Preparando sua mala, a menina começa a juntar outros livros: livros de justiça, paz, amor, memória de misericórdia.

— Já está quase tudo pronto, só falta… você lembra?

Desta vez, apenas a voz do gato ecoa com o estrondo de um livro caindo no meio da sala.

Um livro grosso, de páginas novas, porém gastas; em seu meio, havia páginas rasgadas e outras que foram coladas por infortúnios.

Ela agarra o livro com delicadeza e se afasta da mala. Seu foco começa a viajar por aquelas linhas, como se estivesse com pressa. Era muita coisa para ler em tão pouco tempo.

— Meus sonhos — a frase ecoa em todo o seu corpo, quase como um choque. — Eu não posso; eu gastei a minha vida, eu… Eu vou levar — tenta pôr na mala, mas o livro é grande demais.

— Entra, vamos!

Retira todos os livros da mala, tenta colocar de novo; não entram.

— Eu não posso ir sem ele — coloca o livro em seu peito, respira fundo, levanta, como tentando lembrar de alguma coisa.

O gato retorna.

— Vamos, não tem por que levar nada disso, nem tem por que ir. Vamos, você vai desistir de tudo por conta de algumas palavras bonitas, vai? Todo o seu esforço, todo o seu tempo gasto, você foi tão longe.

— Talvez eu ache como levá-los comigo.

— Não, minha jovem, não cabe na mala, não cabe junto com outros livros, afinal de contas são sonhos só seus.

— Eu posso sonhar mais sonhos lá?

— Mas pensa o quanto vai demorar, olha quanta coisa você terá que carregar junto; realizar certos sonhos sem ter que lidar com tanta coisa é bem mais fácil, não acha?

— Mas…

— Eu não estou te obrigando a ir, pensa bem, aqui é tão mais confortável, tão melhor. Seus sonhos, objetivos, podem ser cumpridos sem tantas exigências bobas.

— Eu não sei… pera, eu quero mesmo abrir mão de tudo?

— Não quer.

“Quem se apegar à própria vida a perderá; mas quem abrir mão de sua vida por minha causa a encontrará.”

— Para onde irei, Senhor, se só Tu tens palavras de vida eterna? Não, eu tenho que focar, tenho que me encontrar com o relojoeiro, nada pode me impedir.

Retorna às prateleiras e volta a buscar o que falta de livros.

— Você lembra? — diz o gato, mais astuto que antes.

— Não, por favor, eu estou tentando me concentrar.

— Ah, então não precisamos disso — o gato joga alguns livros da prateleira para cima.

Pula a jovem para agarrar o livro lançado, como se fosse uma joia.

— Olha, por que não esquece? Isso não dá para esquecer. Aí está o motivo pelo qual você se afastou.

— Eles me machucaram.

— Típico do relojoeiro.

— Não, ele não teve nada a ver com isso, eu, eu…

— Chega disso, criança! Olhe para essa memória, olhe para tudo isso. Você vai querer voltar e se machucar novamente?

— Dessa vez vai ser diferente. Eu mudei.

— Mudou? E está preparada para jogar tudo isso fora? Cada mágoa, cada falha, cada erro, cada pecado que você apontou, apelidou e guardou?

— Não, eu não posso continuar guardando isso, essa biblioteca de lembranças.

— Por que não? É tão mais fácil guardar a mágoa dos outros, culpar terceiros pela sua frieza, colecionar arrependimento e frustração que te põem para baixo, enquanto morre por dentro. “Perdoa, Senhor, as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores.” Me pergunto se Ele te perdoará com tanta coisa guardada, tanta gente que você nunca liberou perdão, tantos erros que você encapou com cuidado.

— Você não é forte o suficiente.

Os lábios da jovem tremem, os dedos se prendem aos livros que ela não consegue soltar, as feridas já haviam saído do seu corpo, mas as suas lembranças ainda a atormentavam, e ela as guardava como escritura sagrada, em sua biblioteca, a qual guardava com tanto zelo.

— Já chega, eu não posso continuar assim, eu tenho que fazer alguma coisa.

— Não precisa fazer nada, deixa que eu cuido de você.

Ela não responde de imediato.

O silêncio pesa mais do que qualquer argumento. O gato a observa do alto da estante, os olhos verdes fendendo a penumbra da sala como duas lâminas úmidas. A chuva já cessara, mas o cheiro de terra molhada ainda entrava pela janela entreaberta.

A mala permanece aberta no chão.
Os livros espalhados como restos de uma batalha invisível.

— Então é isso? — o gato diz, descendo com elegância calculada. — Vai mesmo abandonar tudo?

Ela não olha para ele. Seus dedos percorrem a lombada dos livros como quem toca cicatrizes.

— Não estou abandonando.

— Está deixando para trás. É a mesma coisa.

Ele caminha ao redor dela, lento, preciso.

— Você construiu isso. Cada livro. Cada memória. Cada defesa. Cada argumento. Fui eu quem te ajudou a organizá-los quando ninguém mais estava aqui.

Ela fecha os olhos por um instante.
Ele tem razão.

Foi o gato que a ensinou a arquivar as dores.
A rotular as decepções.
A manter as lembranças longe o suficiente para não sangrar — mas perto o suficiente para nunca esquecer.

— Eu só quis te proteger — continua ele, agora mais suave. — Lá fora há exigências. Há cruzes. Há perdas. Aqui há controle. Aqui você entende as regras.

Ela finalmente o encara.

— Aqui eu sobrevivo.
— E isso não é suficiente? — ele rebate, com uma ponta de urgência.

O silêncio se alonga.

Ela olha para a mala. Depois para as estantes. Depois para o livro que ainda segura junto ao peito.

— Não.

A palavra sai baixa, mas firme.

O gato para.

— Você não é forte o suficiente.

Ela respira fundo.

— Eu sei.

O gato hesita, como se aquela resposta não estivesse no roteiro.

— Você vai se machucar de novo. Vai falhar de novo. Vai ser pequena de novo.

— Provavelmente.

— E mesmo assim vai?

Ela se levanta devagar. A madeira do assoalho range sob seus pés descalços.

— Mesmo assim.

Ele salta à sua frente, bloqueando o caminho até a porta.

— Pense. Lá fora você não terá seus arquivos. Não terá suas justificativas. Não terá suas versões organizadas da própria história.

Ela olha para trás uma última vez.

A biblioteca inteira parece respirar — como um organismo vivo, feito de páginas, pó e ecos. Ali estavam seus medos catalogados, suas mágoas cuidadosamente preservadas, seus sonhos impossíveis mantidos sob vigilância.

Tudo ali a conhecia.

Tudo ali a mantinha.

Ela se inclina, fecha a mala vazia.

O estalo do fecho soa alto demais na sala.

— Eu não levo nada — diz, quase para si.

— Nem seus sonhos? — o gato pergunta, a voz agora menos firme.

Ela hesita.

Os sonhos.

O livro grosso ainda está no chão.

Ela se aproxima, toca a capa gasta, sente o peso familiar. Por um momento, quase cede. Quase o abraça outra vez.

Mas não o coloca na mala.

Também não o leva.

— Se forem verdadeiros, me alcançarão — sussurra.

O gato recua um passo.

— Você vai se arrepender.

— Talvez.

Ele a encara como quem tenta encontrar a velha dúvida, o velho medo que sempre podia ser ativado com a palavra certa.

Mas ela não está discutindo mais.

Ela apenas caminha.

Passa por ele.

A mão toca a maçaneta. E ela saí.

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sou natanael

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Sou escritor e apaixonado por transformar ideias e sentimentos em palavras. Neste espaço, compartilho textos que exploram emoções, conflitos e histórias do cotidiano de forma simples e intensa. Aqui, a escrita é um convite para sentir, refletir e se conectar.

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