
“Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lucas 6:36).
Ao pensar em misericórdia, as nossas mentes costumam nos levar a grandes atos de piedade, o famoso “pena e não a espada”; a imagem sucinta, talvez, da mulher de Mateus 15:21-28 e Marcos 7:24-30, que ao ir até Cristo Pedindo Misericórdia pela sua filha, se humilhou perante a Cristo, nós trazendo a sena do Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. que irá nos remeter ao peso da misericórdia de Deus teve conosco.
E, de certa forma, essa imagem de misericórdia deve, sim, ser guardada em nossos corações; mas, muitas vezes, a imagem rabiscada e glamorosa de grandes atos nos impede de trazer essa marca do Evangelho ao nosso seio de convivência e relação.
Misericórdia deriva do latim miserere; traduz-se por sofrimento comum ou comunidade de sentimentos. No grego, pathos seria algo que estimula o sentimento ou piedade, tal como Cristo na cruz clamando: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”. E essa compreensão do sofrimento e do alívio da misericórdia se alastra como marca do Evangelho, apontando assim para Estêvão, que diz o mesmo em seu momento de dor e morte.
O próprio Paulo, de certa maneira, irá implantar uma cultura na comunidade de compreensão à dor:
Romanos 14:1-2: Acolham quem é fraco na fé, não, porém, para discutir opiniões. Um crê que pode comer de tudo, mas quem é fraco na fé come legumes.
Colossenses 3:13: Tolerem uns aos outros e também perdoem uns aos outros se algum de vocês tem alguma queixa contra alguém. Assim como o Senhor lhes perdoou, vocês também devem perdoar uns aos outros.
Efésios 4:2 (ajuste de referência): Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor.
Isso porque a misericórdia não deve ser vista somente como remédio, mas sim como uma característica da convivência. Do que vale pedirmos desculpas ao nosso irmão por um pecado cometido, se os pequenos erros não são vistos com um olhar de graça?
E, apesar de ser realmente lindo falar dos que foram salvos pela misericórdia de Deus, também podemos falar dos muitos feridos pela falta de misericórdia de Seus filhos; e, como uma herança, essa dor deveria nos ferir. Pois, se Cristo é amado pelo Pai, Ele abraça a cruz pela Igreja, e nos convida a fazer o mesmo quando diz: “Aquele que quiser vir após mim, pegue sua cruz e venha”?
Henri Nouwen disse: “A misericórdia é o remédio para as divisões da comunidade; ela nos une em nossas fraquezas e nos fortalece em nossa caminhada de fé.”
A misericórdia bíblica não deve nos acompanhar apenas como um ato dramático, mas como uma marca aparente e constante, para que em nosso meio não nasça mágoa e nem intriga, a fim de que possamos viver o máximo da comunhão em Cristo. Leonardo Boff ressalta: “A misericórdia é a força que revitaliza a comunidade, pois ela transforma a dor em esperança e a solidão em acolhimento.”
Dito isso, reafirmo: a misericórdia é um pilar essencial da convivência cristã e não deve ser negligenciada, pois a sua falta pode nos levar a machucar nossos irmãos e nos afastar da imagem de Cristo.

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