castelo de olhares

Todo o dia se iniciava a mesma prosa quase como uma trama repetida, Abigail, nossa atriz, musa e solista desta obra sem pleno começo, sempre acordava as 7:00 com o brilho dos holofotes que invadia seu quarto pelas fendas propositalmente deixadas pelo tempo nas suas raras cortinas e como sempre, abria seus olhos e prontamente sorria e cordialmente acenava aos seus admiradores que ali a observavam e em silêncio acompanhavam o seu dia, então rapidamente se soltava ligeiramente da sua cama e corria para seu banheiro onde os seus servos já haviam le preparado um banha mais-que-perfeito, com água colhidas ligeiramente do céu que não se incomodava com o roubo, que quase sempre o ocorria, enquanto tomava seu banho, dirigia o seu olhar a um dos muitos espelhos que cobriam toda aquela casa, seu vários banheiros até os mil quartos que a boa rainha colecionava para o bom agrado dos seus hóspedes. O espelho que a encarava, refletindo de volta, se concentrava apenas em Abigail, já que não havia nada mais importante a retratar. E como sempre, ela se admirava e, com as mãos, tocava seus cabelos preto fosco, semelhantes à noite, perdendo-se em seus olhos azul-turquesa e em seu rosto facilmente apegavel. Naquele lugar, passava parte de suas manhãs esperando se enjoar de si mesma ou que o espelho o fizesse, enquanto o quarto era invadido pelo doce cheiro do seu sabonete.

Acabando o seu banho, abraçava a toalha ao corpo e se dirigia ao seu guarda-roupa, o qual só ela sabia. Viveu eras passando de princesa a membro da nobreza, até parar na posse de Abigail. Lindo guarda-roupa de carvalho branco, com duas portas largas e pesadas, sua fechadura de ferro fino já  gasto. Ela, seguindo aquele drama rotineiro, abria o armário como se estivesse prestes a entrar em um palco feito exclusivamente para ela. Logo após, abria um sorriso do lado esquerdo dos lábios, encarando a única roupa que ali havia: um vestido vermelho outono de alta-costura. Com delicadeza, pegava o vestido pelo cabide fino e o vestia cuidadosamente, como se fosse simplesmente rasgar, se não tivesse cuidado.

Após se arrumar e afirmar belamente que estava deslumbrante, dizendo tais palavras sem se importar com quem ouvia, às 11:54, como um relógio irritantemente certo, Abigail adentra uma sala, guiada pelos seus corredores brancos azulejados que a levavam onde bem queria. Na sala onde entrou, havia um homem assentado em uma mesa, vestido com um casaco bronco. Se bem me lembro, ele era o único homem que não olhava para o rosto dela e nem a desejava; pelo contrário, como um computador, fazia algumas perguntas e lhe dava um pequeno copo com três balas. Nunca a perguntei se eram doces ou não, porém ela tomava tudo de uma vez e, em seguida, repetia com o mesmo rigor um copo d’água, e logo corria de volta ao seu corredor em silêncio, movendo-se para o lado contrário ao de seus aposentos, rumo ao seu lugar preferido de descanso, acompanhado de dois dos seus mais conversadores servos, os quais via todas as manhãs, tardes e noites. Logo, em seu lugar preferido, se via cercada por homens da alta nobreza e viajantes de várias terras. Ao chegar, não podia deixar de conversar com seu amigo pirata e seus bem-intencionados marujos, que jamais perdiam as piadas. Aqueles diálogos sempre passavam do horário, e como não perder, se era com Abigail que conversavam?

Depois de horas e horas de conversas emocionantes sobre as aventuras contadas uma vez por dia e grossas brincadeiras sobre o penteado da rainha, Abigail se ausentava para uma boa partida acirrada, às 15:15, com seu desafiador companheiro de xadrez, que sempre lhe dava trabalho, pois sempre tinha confiança nas peças que o acompanhavam em combate. Ele não era ninguém menos que o bobo da rainha, que sempre ficava irritado pelas piadas feitas sobre o cabelo de sua senhora e descontava em Abigail, que adorava quando o bobo ficava vermelho de raiva. Entretanto, após boas e más partidas, o bobo arremessava pontualmente o tabuleiro de biscoitos no chão. Às 18:01, retornava aos seus aposentos; porém, antes de passar pela sala do mesmo moço, repetia seu lanche de balinhas. Quando se debruçou sobre a cama, que, sem explicação, aparecia arrumada, e como sempre, deu uma bela olhada ao seu bracelete no pulso, dado por seu amado, escrito “hospital psiquiátr…”. Antes de terminar de ler, rompeu um sorriso frouxo ao lado dos lábios ao som de ironia e, com um vislumbre raro, deu uma olhada ao outro lado do quarto, onde me encontrou e, como um bom e perpétuo vizinho, acenei com meu chapéu de penas.

No dia seguinte, acordava, acenava, sorria e levantava, seguindo seu dia como todos os outros. No final, depois da briga com o bobo, ela foi chamada à sala da rainha, que ficava na parte mais alta da mansão. Ao entrar naquela sala, que habitava logo após uma escadaria que vinha do salão principal, onde Abigail só tinha visto uma vez, quando foi recebida na casa de Sua Majestade e conheceu seu amado Deinan, um grande doutor, conhecido por todos.

— Como você está hoje, Abigail? — Perguntou a rainha, tentando chamar a atenção de Abigail, que já tinha entrado nos quadros que enfeitavam aquela sala.

— Sim, minha senhora — diz, curvando a cabeça cordialmente, segurando seus risos e comentários sobre o cabelo de quem estava à sua frente.

— Está pronta? — pergunta a rainha.

— Como assim? — rebate, com a cara torta.

— Te disse há meses atrás que você iria se mudar para outro estabelecimento.

Paralisada, Abigail pergunta o porquê disso.

— Não posso te contar, mas seus pais já estão sabendo e você será bem tratada lá.

Saltando um grito, corre para a liberdade da porta. Entretanto, é agarrada pelos braços traiçoeiros de seus servos, que a envenenam com uma picada em seu pescoço, forçando-a a dormir, mas não antes de fechar o palco com um show de lágrimas. Ela acorda em uma cama que não tinha e em um quarto que parecia, mas não era seu. Olhando à sua volta, percebe que estava em uma sala de hospital; porém, logo sai da ilusão e se lembra do dia em que pintou as paredes com seu pai, o Duque, e dos quadros que a rainha lhe tinha mandado de presente, e do seu banheiro que sempre teve, e suas roupas de azul-violeta. Logo após, se lembra da casa onde morou a vida toda, relembra também uma rotina e um novo amado.

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sou natanael

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Sou escritor e apaixonado por transformar ideias e sentimentos em palavras. Neste espaço, compartilho textos que exploram emoções, conflitos e histórias do cotidiano de forma simples e intensa. Aqui, a escrita é um convite para sentir, refletir e se conectar.

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