Entrevista com um Haitiano no Brasil

Em um igreja batista em guaramirim em Santa Catarina, nas manhãs de domingo exite um lindo projeto, um culto feito em crioulo, para acolher a comunidade Haitiana em guaramirim a arredores, e  a pessoa que está frente desse projeto, e a guém agradeço imensamente essa entrevista, pastor Wilto Jeremie André.

Entrevistador: O senhor é haitiano, né? O que o trouxe ao Brasil?

Entrevistado: O que me trouxe ao Brasil foi o chamado da voz, um som do alto que me chamou. Não era para ir ao Brasil. Era sobre deixar minha terra e buscar a linguagem do povo desconhecido. Eu diria que eu escolhi vir para o Brasil junto com meu pai, minha mãe, minha tia e um amigo. Mas, para ser honesto, eu não queria ir para o Brasil.

Entrevistador: Mas como foi isso? Como surgiu esse chamado para vir?

Entrevistado: Olha, eu conheci a Deus como esse nome. Eles falam que é uma entidade que se chama assim. Desde jovem, eu já tinha outros sonhos. Eu vinha em uma igreja e sentia que algo me chamava. Eu estava na igreja, conversando com um camarada, e quando eles falavam a verdade, eu sentia que aquela era a verdade. Eu tinha 4 anos e, em 1998, meu pai me chamou para essa nova jornada. Ele me disse que eu não conhecia meu verdadeiro pai.

Entrevistador: E como é a sua adaptação no Brasil?

Entrevistado: A adaptação é uma coisa que leva tempo. É uma caminhada, na verdade. Não posso dizer que estou 100%. Uma das coisas que mais me incomoda, especialmente em relação a pessoas que não conheço, é o clima do Brasil. A adaptação me atinge de várias maneiras. O clima é duro para mim, e isso se reflete em como me sinto. É uma adaptação que não gosto, e me esforço para ser flexível. Preciso entender como a situação se desenvolve.

Entrevistador: Como foi a decisão de fazer um projeto com os haitianos? Como começou esse projeto?

Entrevistado: Esse projeto começou em um dos momentos mais significativos da minha vida. Quando cheguei aqui, estava conversando com uma amiga e nem sabia onde ia. Eu fui para o Brasil, para uma nova cidade, São Paulo, e inicialmente pensei que também iria para Nova York.

Esse movimento me permitiu entender que, através do Evangelho, eu poderia contribuir para o crescimento dos outros, assim como eu também poderia crescer. Nesse sentido, cheguei à igreja no segundo e no terceiro domingo de outubro de 2013. Falei: “Se é para ser desta forma, que seja feito aqui, assim como era na minha igreja no Haiti”.

Nos domingos seguintes, percebi que a comunicação era essencial para a construção da nossa comunidade. Quando cheguei à igreja, disse a Deus: “Estou aqui para aprender, mesmo que tenha dificuldades de entendimento”. O que eu mais entendia era a pregação. A primeira passagem que ouvi em português foi Apocalipse 2, e a segunda foi sobre o “Primeiro Amor”.

Depois de um tempo, me perguntaram: “Por que você não abre um grupo para a comunidade haitiana?” Eu hesitei, sentindo que ainda não estava pronto. Eu pensava: “Como posso ensinar, se ainda estou aprendendo?” Em meio a essa dúvida, convidei um colega para juntos explorarmos a possibilidade de criar esse grupo. Nesse dia, reconhecemos o potencial do nosso trabalho e a necessidade de convidar mais pessoas para se juntarem a nós. Assim, comecei a receber e plantar sementes de esperança, incentivando outros a buscar também. Um colega meu até me ajudou, e juntos começamos a convidar mais pessoas. Assim, fomos crescendo aos poucos. Iniciamos em 2 de agosto de 2015, com 11 pessoas. Hoje, temos 76, incluindo 37 crianças.

Entrevistador: E como você observa as diferenças culturais entre a espiritualidade haitiana e a brasileira?

Entrevistado: A espiritualidade haitiana tem uma profundidade única; nós adoramos com alma e corpo. No Brasil, percebo que a adoração é mais alma. Aprendi isso ao longo do tempo. Temos um ímpeto de adoração que não podemos negar. Por exemplo, já fui a uma igreja em Recife e percebi que a vibração do culto é bem diferente, assim como em outros estados como Bahia e Rio. Em Santa Catarina, a cultura parece ser um pouco mais fria, mas está acordando, com grande alma. O povo é alegre, e adoramos a Deus com todo nosso ser, utilizando todos os instrumentos e a dança.

Entrevistador: Qual a importância do culto na língua crioula para a comunidade haitiana que está chegando ao Brasil?

Entrevistado: Primeiramente, a questão da adaptação é essencial. Quando você chega a um novo país, há um choque cultural. Esse choque pode ser intenso. Mas quando temos uma igreja que fala a nossa língua, nos sentimos mais abertos e acolhidos. A comunicação não é apenas verbal, mas também emocional e espiritual. O culto criado em nossa língua proporciona um espaço seguro de pertencimento. A adoração em crioulo conecta os sentimentos e as emoções que temos, ajudando-nos a integrar melhor e a vivenciar a fé.

Entrevistador: Qual o papel da igreja na integração dos haitianos?

Entrevistado: O papel da igreja é crucial. Como todos nós adoramos um só Deus, os cristãos trabalham juntos com a mesma alma. Sem a igreja, eu poderia ser apenas mais um haitiano no Brasil e não a pessoa que eu sou hoje. Na igreja, encontrei apoio, não apenas de pastores, mas de toda a comunidade. Quando cheguei, não sabia até mesmo como ir ao mercado. Contudo, tudo o que precisava, como comida, roupas e apoio emocional, eu recebi. A igreja é um porto seguro de amor e transformação.

Entrevistador: Quais são os maiores desafios enfrentados pela comunidade haitiana atualmente?

Entrevistado: Os desafios são muitos. Temos a questão do emprego, da documentação e, claro, do preconceito. O preconceito é extremamente chocante e doloroso. Ouvir certas coisas pode ser desanimador. A documentação é complicada de se obter. Quando chegamos, não sabemos onde ir, e muitas vezes precisamos de alguém para nos guiar. Muitas vezes, mesmo quando alguém quer ajudar, não sabe como. Esse é um grande obstáculo.


Entrevistador: Qual é a diferença no sentimento ao orar e pregar em crioulo comparado a outras línguas?

Entrevistado:bOrar em crioulo é algo elemental para mim. É uma facilidade e uma conexão que não consigo explicar em outras línguas. Quando oro, é uma conversa íntima entre eu e Deus, e ninguém pode orar por mim. Cada um tem sua própria relação com Deus. As outras línguas têm seus valores, mas não têm a mesma emoção ou significado que o crioulo traz para mim. Quando falo crioulo, sinto que estou realmente expressando minha essência.

Entrevistador: Há uma palavra ou expressão em crioulo que toque sua espiritualidade?

Entrevistado:  Sim, tenho muitas palavras em crioulo que são especiais para mim. Elas têm significados profundos que não se traduzem diretamente. Por exemplo, quando digo “papai do céu”, sinto uma conexão maior. Essa expressão reflete não apenas respeito, mas um laço emocional que não consigo encontrar em português.

Entrevistador:  O senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa antes de encerrarmos?

Entrevistado:Sim. Mas há muita coisa para se dar mais valor. Sempre que você nasce, a ordem da vida é nascer, crescer e, por fim, morrer. Então, nasce, cresce e vive na vontade de Deus, para funcionar e se revelar.

A jornada é difícil, principalmente sem a religião. Se um cachorro anda na rua, o que podemos esperar? A religião pode parecer loucura para alguns. Se você desce, você nasce. Você é criado para viver.

Você se tornará um filho ao aceitar a Cristo. E como se aceita a Cristo? Ele aceita de qualquer maneira. Você entra, mas Ele não vai permanecer com você do jeito que você era. Ele transformará seu mundo e seu coração, à medida que você o seguir. E você se transformará e regenerará. Você vai viver o Evangelho, como fala em 1 Samuel 4:16-18.

O som da trombeta ecoará para você que morre em Cristo, e nós que morremos por Ele ouviremos esse som e iremos buscá-Lo. Mas aqueles que não morrerem, não serão Seus filhos. Porém, eles vão despertar.

Portanto, devemos nos preparar sempre. Precisamos nos arrepender e ter cuidado com o que estamos pensando, falando e praticando, porque a eternidade é real. O inferno também é real. Não devemos escolher o inferno. Muitas vezes, podemos não querer, mas precisamos estar atentos.

O Evangelho é transformação, não apenas aceitação. Ele aceita de qualquer forma, transforma e liberta. Ele nos transforma e nos espera de maneiras comuns. É uma aproximação. O Evangelho que dá vida à vida é essa aproximação. Quem vem ao caminho de Cristo precisa pensar assim.

É “metanoía”, e usamos essa palavra grega. Isso é muito importante. Agradeço por fazer essas perguntas, porque são valiosas. Compartilhar a grandeza de Deus e aquilo que Ele fez no mundo é essencial. Eu não sou capaz de viver tudo que o Senhor fez hoje. Mas posso por causa da obediência. A obediência tem um custo. A compensação é muito maior que o processo.

Se você tem um chamado que Deus te deu, você vai pagar um preço. Pode ser um ano, dois anos, mas a compensação virá para a vida toda. Já pensou se você não aceitasse o chamado de Deus? Você não teria encontrado o caminho.

Quando você obedece, pode sofrer sozinho no início. Eu sofro. Eu não consigo fazer isso sozinho. Mas, no fundo, todos somos chamados a obedecer. Eu vou obedecer à marca de Cristo, à Sua marca.

Não é nada fácil. Às vezes, parece bagunçado. Hoje, estou trabalhando assim. A compensação não é imediata. O que precisamos é obedecer. E assim vai. Quando eu obedeço, as oportunidades aparecem e Deus sempre tem um lugar para você.

Uma frase que eu amo é que a renda de Deus nunca está cheia. Nunca está cheia para quem vive sem Deus. Mas quando você busca a Deus, tudo se transforma. Não há necessidade de forçar a religião.

Obrigado, Nathan, pelas perguntas. Nossos filhos podem aprender conosco. Se pudermos ser de um, podemos fazer novamente.

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sou natanael

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Sou escritor e apaixonado por transformar ideias e sentimentos em palavras. Neste espaço, compartilho textos que exploram emoções, conflitos e histórias do cotidiano de forma simples e intensa. Aqui, a escrita é um convite para sentir, refletir e se conectar.

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