Havia silêncio nos primeiros minutos de súplicas. Alguns minutos depois, sussurros tortos começavam a ecoar, rompendo o silêncio da casa em poucos surtos altos enquanto a prece se estendia.
“Menino, venha aqui,” gritou uma voz de um cômodo distante, enquanto observava a porta branca. Ao se levantar da velha almofada vermelha que ficava à porta — uma almofada grossa e pesada, que servia de encosto para o quarto de Deus, um lugar que não se deveria brincar —, ele respondeu com um movimento rápido da cabeça e um murmuro, e voltou ao travesseiro. Pegando o pequeno objeto, colocou-o de volta no canto do corredor.
Ao passar pela porta, notou de relance algo passar por ele. Uma entidade apareceu, e um empurrão logo se seguiu, fazendo-o bater na parede e cair de joelhos no chão.
“Oi, pai!”
“Já disse para você não observar a sua mãe orando. Você sabe que isso é coisa séria,” disse o pai, levantando a mão.
“Desculpe, desculpe!”
“Vai para o quarto,” disse, dando-lhe um tapa prematuro.
“Sim, senhor.” Com a cabeça baixa, ele seguiu para o quarto em silêncio, uma das muitas lições que aprendera.
As rachaduras no teto sempre chamavam sua atenção. Deitando-se no chão do quarto, apoiou as mãos atrás da cabeça e começou a observar melhor. Observava as rachaduras que, desde que conseguia se lembrar, tinham se espalhado pelas paredes mofadas. O quarto era pequeno o suficiente para que seus cotovelos trombassem com as paredes, um empecilho para seu corpo em suas noites de pesadelos mentirosos, sonhos ruins que o inimigo lhe proporcionava para fazê-lo desobedecer; o pastor sempre dizia: “Respeite seus pais. Ele não é um homem mal, só quer educar.”
Enquanto o sol se punha em seu quarto, lembrou-se de imaginar pedir a Deus por um quarto melhor, mas logo recordou a frase da mãe: “Ingrato, só pede coisas para você, e nem tem idade para pedir algo de qualquer jeito.”
“Menino! Venha agora lavar os pratos!”
O grito o assustou, fazendo seus braços tremendo em resposta a um choque forte. Recompôs-se e foi cumprir suas obrigações de bom filho. Correndo pelos corredores não tão largos, foi imediatamente para a cozinha, ignorando o quarto de porta branca, que agora não mantinha mais o silêncio, mas sim gritos e citações de versículos, acompanhados de pulos e línguas desconexas.
Os pratos empilhados o aguardavam. O pai estava sentado à mesa de jantar, com um cigarro em uma mão e uma lata de cerveja na outra; outras quatro estavam na pia. Jogou as latas já lotadas no lixo ao lado da geladeira. Enquanto lavava os pratos, fazia uma brincadeira mental sobre o que tinham comido. Começando pelo almoço, o mais recente, os restos estavam dispostos com arroz e feijão; as panelas ainda exalavam o cheiro. Quando se aproximou do prato do café, ouviu de repente um grito avulso atrás de si. Mais uma vez, seus braços reagiram ao susto, e ele deixou cair um prato.
Logo, uma figura feia segurava o cabo de uma vassoura erguido acima da cabeça; seu primeiro alvo foi a cabeça dele. Após cair no chão, vieram os chutes. Rapidamente, ele se posicionou de pé, protegendo os olhos, reconhecendo os restos da bancada pelos cortes de unha e pelo som da madeira. O sangue espirrou sem intenção de manchar o chão, e as dores nos braços intensificaram-se. Ele tentou segurar os gemidos ao máximo, mas parou quando adormeceu.
Ao acordar, a casa estava vazia. Levantou-se para retornar ao seu quarto, mas não conseguiu resistir à oportunidade de ver o quarto de porta branca. Entrou, matando sua curiosidade, e desmaiou logo depois pela dor, balbuciando um último pedido.
No dia seguinte, o jornal anunciava:
Um casal foi morto em um acidente de carro. Após o acidente, os policiais encontraram seu filho de 10 anos vivendo em situações precárias. O casal mantinha o menino em um pequeno espaço na casa que deveria ser uma despensa de materiais e o alimentava com ração. Enquanto isso, mantinham um quarto fechado para rezas e orações.
Pessoas próximas disseram não ter ideia dos fatos; porém, a polícia duvida e continua com as investigações. A criança foi levada para o hospital mais próximo, onde está recebendo tratamento e apoio psicológico.

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