Vila minha patria

A vila minha pátria é um projeto social, sem fins lucrativos, que fica na cidade de Morungaba em São Paulo, o projeto tem como função acolher refugiados, que foram forçados, a deixar suas casas e famílias, nesta entrevista iremos conversar com uma missionária que serviu nesse projeto lindo.

Entrevistador: Poderia falar um pouco sobre a senhora?


Missionária: Meu nome é Luciana Schneider. Eu tenho 35 anos. Quase fazendo 36, faltam alguns dias. Hoje em dia, eu trabalho aqui na Secretaria da Vida Nova. Auxílio o Pastor Tunala nas questões das agendas e a Sheila, que é do financeiro. Estou aqui para ajudar no que precisar. Sou missionária, fui missionária na Vila Minha Pátria, que fica em Morungaba, pela Junta de Missões Nacionais. A Igreja Vida Nova me enviou até lá. Estou aqui trabalhando neste ano sabático e acredito que ficarei até metade do próximo ano. E, se Deus quiser, no próximo ano, vou para a Itália, onde, se Deus permitir, farei um voluntariado ou algo nesse sentido de missões. Meu coração sempre arde por missões, a cada minuto, a cada segundo.


Entrevistador: Como é a experiência no campo?


Missionária: A experiência no campo vira você de ponta cabeça. Tudo que eu imaginava sobre a Vila Minha Pátria e o campo missionário faz você refletir constantemente sobre questões sobrenaturais, sobre o mover de Deus e o que Ele pode fazer. O momento que passei ali foi totalmente diferente do que vivi em toda a minha vida. Acho que vimos o extraordinário de Deus acontecer de forma muito palpável. Ali, foi um momento em que cresci como pessoa. Passei por vários desafios, vamos dizer assim, porque vamos com a fantasia de romantizar o campo missionário, e isso acaba te prejudicando de certa forma.
Você quebra a cara muitas vezes. Sempre fui uma pessoa muito reservada, então o campo missionário para mim foi um aprendizado gigante. Acredito que todos os missionários que saem de um campo, ficam por um período. Como radical que fui, depois fiquei como missionária em formação. A palavra que eles mais usam é “aprendizado”, e ver o amor e a graça palpável de Jesus em todos os momentos.


Entrevistador: Você falou um pouco sobre a dificuldade do campo, sobre o nervosismo e a ilusão de quem está fora do campo. Você sentiu isso de alguma forma?


Missionária: A maior dificuldade para mim foi porque sempre fui muito tímida em todos os sentidos. Por mais que às vezes eu não aparente tanto, uma coisa que me pegou foi o medo de orar em público. Fiquei muito tempo fora da igreja, praticamente uns 10, 11 anos.
Nasci em um berço cristão. Quando voltei, foi tudo muito rápido: comecei a frequentar retiros, congressos. Essa questão de orar sempre foi muito difícil para mim, especificamente em público. Quando estou em casa, fecho a porta e é só o Senhor para me ouvir, mas para mim, a dificuldade de orar em público foi marcante. Além disso, como eu era seminarista, eles colocavam que, de tempos em tempos, você teria que trazer uma palavra. Tínhamos devocionais durante a semana, e isso era desafiador para mim. Sou muito sistemática e correta naquilo que vou falar, então tinha medo de dizer algo errado. Via muitos vídeos de pessoas trocando palavras e pensava: “Meu Deus, isso vai acontecer comigo!” A dificuldade de orar e me expressar, e também a questão de liderar uma equipe, foi complicada para mim, já que normalmente eu era liderada. Trabalhei em uma empresa em que eu liderei ninguém, mas ao mesmo tempo era responsável por todos, porque a última palavra era do meu chefe. Começavam a acontecer situações, e eu ficava nervosa, sem saber o que fazer.
Por ser perfeccionista, isso me deixava ansiosa. Algumas vezes, eu saia chorando, mas Deus sempre me sustentou. Elas me deram apoio emocional e espiritual. Acredito que a liderança e a dificuldade de orar em público sempre foram desafiadoras para mim.


Entrevistador : Como ficou o emocional no campo?


Missionária : O emocional é bem afetado porque trabalhamos muito próximos. Na Vila Minha Pátria, todos estavam juntos: os acolhidos e a equipe. Isso faz uma diferença enorme. Nos outros campos missionários, por exemplo, na Cristolândia, existe um galpão onde os acolhidos ficam. No campo missionário, você está 100% dentro do dia a dia, o tempo todo, e isso afeta muito o emocional. Você não consegue desvincular; não tem um dia de folga em que pode ficar em casa. Eu trabalho aqui na Secretaria das 10 da manhã às 7 da noite, depois vou para casa. É como se estivesse morando aqui dentro da igreja.
Emocionalmente, isso pode ser muito exaustivo. O cansaço físico também leva a reflexões: “Será que estou fazendo o que Deus quer?”. Sua cabeça fica um turbilhão de perguntas. Além disso, tem a distância; eu nunca tinha saído de Santa Catarina. Quando fui para Morungaba, São Paulo, eu tinha muito medo de estar lá. Lembro-me de uma vez que sonhei com minha mãe e com minha família, o que me pegou de jeito. O dia todo eu pensei em como queria estar perto da minha família. Quando cheguei ao campo, cheguei chorando, e um dos acolhidos que sabia falar um pouco de português me perguntou por que eu estava chorando. Eu expliquei que sentia saudades da minha família, e ele disse:
“Aqui todos nós somos família.” Eles estavam sendo acolhidos por nós, mas eu também me sentia acolhida por eles.


Entrevistador : O que você acha que deve ser o cuidado e o preparo para uma pessoa mudar para o campo, tanto emocional quanto espiritualmente?


Missionária : Antes de ir para o campo, eu já tinha feito minha inscrição, e jejuar e orar por 30 dias foi algo muito impactante para mim. Acredito que um preparo espiritual é essencial.
Se você conhece alguém que já passou pelo campo, seria bom trocar ideias. É importante ter um coração aberto para servir de fato. A questão de servir é arregaçar as mangas e trabalhar ao máximo. Também é fundamental ter o apoio da família e da igreja. Criei um grupo de WhatsApp só com pessoas que intercediam por mim. Quando precisava de oração ou passava por dificuldades, elas estavam lá. Criamos vínculos fortes. Espiritualmente, você deve estar bem focado e determinado. Uma coisa que eu sentia no campo era a exigência de manter meu devocional em dia, e isso impactava meu emocional. Se você deixar de fazer seu devocional, não deixe, porque é um dos pontos mais fortes; busque de fato a Deus. No nosso campo, nunca passamos por possessões; sabíamos que poderia acontecer, mas é algo que não vivenciamos.


Entrevistador : Lembra de alguma história impactante que aconteceu no campo?


Missionária :No campo, passamos por tantas coisas que um dia parece uma semana. A história mais impactante para mim foi a amizade com uma família afegã que passou por momentos bem complicados. Toda a família se converteu, e tive a oportunidade de ouvir da boca deles como foi a conversão. Eles me convidaram para tomar chá na casa deles e começaram a falar sobre como foi a vinda deles para o Brasil. Eles passaram por momentos difíceis na fronteira. O homem contou que, ao atravessar a fronteira do Irã para a Turquia, eles foram interceptados e começaram a atirar. Ele contou que se agarrou à família e clamou: “Se existe um Deus, que me proteja.” Ele viu uma bala se desfazer diante dele, mas ele foi torturado por um dia inteiro. A esposa foi levada para outra cela, e eles passaram por momentos terríveis. Depois de tudo, eles conseguiram escapar e vieram para o Brasil, mas ainda enfrentaram dificuldades no aeroporto. Lembro da cena deles chegando na Vila, e foi um momento emocionante. O acolhimento foi especial, e quando a mulher recebeu a chave da casa, começou a chorar. Todos nós estávamos tocados. Entre eles, eu testemunhei a conversão de um muçulmano em Jesus, e isso foi incrível. Eles foram para Brasília e, posteriormente, para os Estados Unidos. Vi um vídeo dele lendo a Bíblia em persa, o que foi extremamente emocionante. O cuidado e a provisão de Deus foram marcantes em minha vida, mesmo depois que saí do campo missionário. Quando conversei com um pastor no meu último dia, percebi que era o momento certo de sair. A missão vai além da Vila Minha Pátria; é o nosso dia a dia. Somos todos missionários, e devemos estar atentos às oportunidades.


Entrevistador : Por último, gostaria de deixar alguma mensagem final?


Missionária : Acredito que o campo está bem maduro. Todos nós somos pequenos missionários, e temos que discipular e fazer a nossa parte. É essencial ser humilde de coração, acolher as pessoas e ser uma testemunha viva do amor de Cristo. Precisamos de pessoas dispostas a deixar suas famílias e ir para o campo. Existem dificuldades, principalmente para homens, porque pensam muito no futuro, mesmo que seja por um ano.
Se você tem 18 anos e deseja fazer um ano sabático, faça-o de forma radical. 

Entrevistador : Muito obrigado pela disponibilidade para a entrevista.
Missionária : Eu que agradeço.

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sou natanael

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Sou escritor e apaixonado por transformar ideias e sentimentos em palavras. Neste espaço, compartilho textos que exploram emoções, conflitos e histórias do cotidiano de forma simples e intensa. Aqui, a escrita é um convite para sentir, refletir e se conectar.

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