
O frio cobria a cidade, que seguia em uma festa silenciosa, como um feriado quase esquecido. As ruas principais estavam repletas de compradores vorazes, indo de loja em loja, perdidos na agitação das vitrines. No entanto, a Avenida 25 permanecia quase completamente vazia, uma das poucas constantes em meio ao caos. Apenas uma menina de laço quadriculado e mãos cheias de sacolas da padaria atrás da praça principal, rompia a monotonia do cenário.
O nome da jovem pouco importava, assim como a melodia vazia e quase inocente que ela cantarolava enquanto passava por aquela rua. Os tijolos expostos das casas enfileiradas pareciam brilhar à luz do entardecer, refletindo a beleza da jovem que passava. Até eu, um mero observador, tomei um susto quando o relógio bateu e a menina gritou. Imaginei que ela havia se atrasado para algum compromisso ou que um rato havia passado, causando-lhe susto. A curiosidade me levou a inclinar-me para entender melhor a realidade daquela cena.
Num instante, ela tapou a boca, rápida o suficiente para impedir que outros a ouvissem, mas não para mim, que escrevo estas linhas. Ela partiu em busca do motivo de seu espanto e se jogou no chão. Com os olhos cheios de lágrimas, apresentou uma cena digna de um drama, embora sua atuação não merecesse nem um troféu de pior. Mas não sou crítico; sou apenas o escritor deste conto.
Um cachorro estava no chão, coberto por uma manta velha e suja, encharcada pela chuva que havia atormentado as ruas pouco antes. Seu corpo, quase completamente frio, tinha o pelo branco e molhado — um vira-lata, talvez. A menina acariciou o cão e o colocou em seu colo, manchando sua linda blusa branca enquanto o abraçava com seu casaco. Suas compras estavam espalhadas onde seu show começou, resultado do ato de largar tudo que tinha em mãos antes do grito. Deus! Como um cachorro pode sofrer tanto? Como alguém pode deixar uma criatura sofrer desse jeito? Com os olhos cheios de lágrimas, a menina tirou a cólera do animal e a jogou em um pequeno monte coberto com panos sujos ao lado de onde achou o vira-lata, que já havia percebido. Ora, como não teria percebido, se ouvia a respiração? Mas suas mãos já estavam em uso, e dali partiu.
O frio foi embora, assim como a noite. Ao acordar, o menino, cuja presença não tinha a mesma importância que a dos dois astros da noite passada, percebeu que havia perdido seu cachorro dos braços e começou a chorar. O ato parou imediatamente ao ver os muitos sacos de pão espalhados pelo chão, arrastando-se com seu corpo frágil. Ele se arrastou até o saco, rasgou-o e começou a mastigar o croissant junto com o pão francês, que, mesmo encharcados, valiam cada centavo de onde foram comprados. E assim o dia começou, com um jovem comendo seu café da manhã e um cão quentinho no colo da nova dona.

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