Arte e missão

Agradeço imensamente à missionária e artista Elisângela por me dar a honra de entrevistá-la sobre um tema tão lindo e importante como a arte no meio missionário, e por sua disponibilidade para isso.

**Fale um pouco sobre a senhora para começarmos.**

Jesus! E aí, pessoal? Tá. Você quer saber sobre mim? Ui, se bota no meu rolê, tá? Vamos lá.
Bom, meu nome é Elisa Valenzuela, que é meu nome artístico. Meu nome verdadeiro é Elisângela, tenho 31 anos e trabalho com arte há cerca de 10 anos. Sou artista de teatro e também poeta. Estive na companhia CNC por três anos e meio.

Aprendi muito lá. Atualmente, sou professora de teatro na minha cidade, Mumbai, no Mato Grosso do Sul, e há dois anos estou atuando como professora em projetos sociais.
Hoje, tenho em torno de 50 alunos. Não, na verdade, tenho mais. Acho que uns 100, talvez até um pouco mais de 100. Enfim, mais de 100. Tenho desempenhado um trabalho muito legal, compartilhando aquilo que é uma paixão para mim: o teatro. Amor.

**Como a arte influencia sua vida e como a senhora a aplica em seu ministério, missão?**

A arte influencia minha vida de diversas maneiras e eu a aplico na missão. Como missionária, a missão sempre ardeu em meu coração. Porém, eu enfrentei uma crise em relação a ser artista. Sentia meu coração queimando pela missão. Sempre fui uma pessoa diferente, e acho que todo artista tem suas particularidades. Porém, eu não me via como artista. Não tinha essa identidade, talvez por conta do meu contexto. Vindo de cidades do interior, não tinha muito acesso à cultura e à arte.

Isso me fechou, e eu me sentia retorcendo, desejando ser uma pessoa normal. Mas o artista não é normal; ele tem suas diferenças. Tudo o que era diferente sempre me atraía. Foi algo que Deus trabalhou primeiro em minha identidade, me ajudando a entender que sou artista. Então, veio o chamado para a missão. Deus abriu as portas e eu fui para o campo missionário com a companhia Jeová Nissi.

Já realizava alguns eventos artísticos na minha cidade com uma companhia da qual participava, além de eventos evangelísticos, utilizando o teatro e a arte. Em 2019, fui convidada pela CNC para participar da peça “Casa”.

Havia uma equipe de turnê no meu estado e faltava uma pessoa para completar essa equipe. Fui convidada e entrei. Não passei por nenhum processo seletivo, pois para entrar na companhia é necessário passar por um processo seletivo e fazer o instituto CNCi.

Mas, no meu caso, foi diferente; foi Deus quem me trouxe até lá. Eu realmente não faria o instituto. Não era porque eu não quisesse, muito pelo contrário, eu queria muito, mas acabava dificultando demais. Então, foi assim que Deus me encontrou. Enfim.

Entrei na companhia e permaneci até o ano de 2022, quando encerrei a turnê. Durante esse período, vivi muitas experiências incríveis e percebi o quanto a arte é uma ferramenta poderosa para falarmos do amor de Jesus. A arte vai aonde, muitas vezes, o pastor ou o missionário não conseguem ir, por conta de estereótipos. Muitas vezes, as pessoas dizem: “Ah, aqui não recebemos missionários”, mas quando você vai com uma peça de teatro, as portas se abrem.

Vimos muito isso. Fomos a lugares que não queriam saber de crentes, mas abriam as portas para a companhia porque era arte, era um espetáculo. Assim, conseguimos falar do amor de Jesus e testemunhar pessoas sendo alcançadas. Muitas prefeituras nos chamam, mas não como missionários, e sim como artistas.

E assim, vamos lá e falamos para uma cidade, para um povo, sobre o amor de Jesus. E, cara, essa é a estratégia que Deus nos deu. Deus é multiforme e usa uma infinidade de coisas e detalhes para que Seu nome seja glorificado e exaltado.

**Qual foi a atividade no campo que mais marcou a senhora?**

Houve muitas experiências marcantes, mas a que me tocou de maneira especial foi quando fui a sócios educativos no Acre, que são presídios de menores infratores. Recebemos um convite para ministrar lá e fizemos isso em vários sócios educativos. O feminino me marcou bastante, pois quando começamos a ministrar, vimos várias meninas com olhares duros e frios, expressando rejeição. Mas pedimos a Deus que nos usasse naquele lugar e fizesse o que Ele qu**fizesse.**

Na metade da peça, que tinha duração de uma hora e quarenta minutos, já víamos muitas meninas chorando, muitas delas se quebrantando. Quando chegamos ao fim da apresentação e fizemos o apelo, todas as meninas daquele sócio educativo aceitaram Jesus. Isso foi extremamente especial para mim e me marcou muito, porque percebemos que não se trata de nós, nem do que achamos, mas do que o Senhor quer fazer. Essa experiência no sócio educativo foi realmente impactante.

**Sobre as dificuldades que a senhora já enfrentou no campo, houve alguma que a desestabilizou?**

Muitas. Eu enfrentei muitos desafios, meu Deus. Acho que o maior deles é lutar consigo mesma.

Antes de ir para o campo missionário, eu era muito quadrada. Achava que tudo deveria acontecer do meu jeito, da forma mais confortável possível, e que todos deveriam agir da maneira que eu acreditava ser a melhor. Mas eu não fui para o campo sozinha; fui com outros missionários. Portanto, eu precisava me adaptar não apenas ao que era bom para mim, mas ao que era bom para os outros também. E, muitas vezes, o que é bom para os outros pode ser desconfortável para mim.

Acho que isso é uma das lições que Jesus quer nos ensinar: não se trata de nós, mas d’Ele. É sobre amar o próximo e se permitir ser quebrado para que o outro também fique bem. Isso é reino: não pensar apenas em si mesmo. Imagine só: se eu pensar que tudo deve girar em torno da minha vontade, do meu querer, do meu jeito, não estou olhando para o próximo. Não adianta nada eu ser missionário para falar do amor de Jesus nos altares ou enquanto estou com a palavra, mas ser uma pedra de tropeço na convivência com meus irmãos, dificultando a caminhada deles.

Vi muitos relatos sobre isso e, quando entendi essa realidade, percebi que não queria ser a pedra de tropeço que fizesse meu irmão voltar atrás. Muitos missionários acabam tornando a caminhada do outro tão difícil que sufocam o chamado alheio. Isso é muito sério e, infelizmente, acontece.

Missionários que são irredutíveis acabam sufocando o ministério do outro e fazem com que a pessoa volte cansada para casa. Portanto, precisamos ser leves no campo e levar a leveza de Jesus, caso contrário, destruímos a caminhada do outro. Uma das maiores barreiras no campo é estarmos sempre atentos ao bem-estar dos nossos irmãos.

Como está seu irmão? Como ele se sente? Os missionários também enfrentam dias difíceis. Passamos por momentos de saudade de casa, de fome às vezes, porque não conseguimos comer a comida local. Passamos calor intenso, especialmente quando fui ao Norte, ou frio excessivo. Fomos acometidos por doenças por conta das condições climáticas. Mas, o que pode nos parar? Quando você diz “eis-me aqui, Senhor”, precisa ter consciência de que isso é para o trabalho árduo, para os desconfortos.

O “eis-me aqui” é para os momentos difíceis, para a fome. Como diz o apóstolo Paulo, ele permaneceu firme na fome, na tempestade, nas mudanças, nas surras.

**A senhora já viajou muito, não é? E viu vários polos culturais diferentes? Já esteve em algum lugar que a fez pensar: “Nossa, que diferente! Que campo para aplicar a arte e a cultura com finalidade evangelística”?**

Acho que os povos indígenas são um exemplo marcante. Trabalho atualmente com os indígenas da minha cidade. Hoje estou local, mas continuo realizando trabalhos com eles. O índio possui uma cultura linda, riquíssima. Eles carregam a arte em suas tradições e cores.

Com um olhar mais artístico, acredito que podemos explorar muito esse potencial. Faço teatro com eles e percebo que eles têm mais a me ensinar do que eu a eles. Muitas vezes, sugiro fazer uma peça com o pessoal da aldeia e eles me mostram coisas incríveis que podem ser utilizadas como ferramentas para o teatro, tudo oriundo da cultura deles.

Eles têm danças lindas, músicas muito legais e um artesanato belíssimo. Vejo um campo vasto dentro dessa questão artística e cultural.

**E para os missionários e artistas que estão lendo essa entrevista, o que você gostaria de dizer?**

Que continuem, que não parem, porque este é um campo muito vasto. Ser artista e missionário é um privilégio para poucos, e precisamos explorar isso. É essencial que façamos isso com nossa sensibilidade, aproveitando aquilo que só o artista consegue entender de um povo.

É interessante notar que, embora não desmereça nenhum outro missionário, cada um é muito válido no campo, mas o artista muitas vezestem uma sensibilidade mais aflorada para entender e alcançar um povo que pode passar despercebido. Falo dos artistas: o artista enxerga o outro artista.

Entende? Às vezes, estamos em uma comunidade e temos várias pessoas, mas é o artista que consegue identificar quem são os artistas ali. Às vezes, nos perguntamos por que alguém se sente de determinada forma. Nós, artistas, sentimos de maneira mais intensa e sensível. É necessário um posicionamento de um artista que ama Jesus para alcançar alguém que talvez esteja apagado em sua comunidade local.

Então, meu recado para os outros missionários que são artistas, que ardem por Jesus e têm esse desejo, é que usem essa ferramenta que o Senhor lhes deu. Usem sua arte para que o nome do Senhor seja proclamado. Usem sua arte para que o reino avance.

Dentro desse campo artístico, há tanto a ser dito! Meu Deus! Mas, bom, acho que, como artistas, precisamos acreditar mais em quem somos e na nossa arte. Muitas vezes, achamos que ser artista é apenas se apresentar, como a maioria faz. Eu, por exemplo, escrevo poemas também. Por muito tempo, escrevi e guardei tudo para mim, com aquele orgulho de não querer compartilhar. Aquele orgulho de pensar: “Não é meu, são minhas coisas, é minha arte”. E o artista tende a se cobrar demais, buscando a perfeição.

Quantos rabiscos preciosos que poderiam dar vida a outras pessoas acabamos amassando e jogando no lixo! São coisas que poderiam transformar vidas. Precisamos acreditar em nossa arte.

Você precisa acreditar no que faz. Pare de jogar fora, de amassar aquilo que é tão precioso e que veio de Deus para você. A arte não é nossa; somos apenas instrumentos. O maior artista nos deu um pouquinho de Sua essência artística para que possamos glorificar Seu nome através do que é d’Ele e que Ele nos emprestou.

É essencial acreditar na sua arte, nos seus rabiscos, nos seus desenhos, que podem ter sido ignorados. Acredite na sua fotografia, que está guardada na gaveta ou nos arquivos. Acredite no que você faz com suas mãos, pois isso não é só um dom; é um dom de Deus. E, como tal, precisamos ser responsáveis.

Assim como na obra missionária, onde o missionário é responsável por vidas, o artista também é responsável pela arte que o Senhor lhe deu, para que Seu nome seja glorificado e alcance outras vidas também. Amém.

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sou natanael

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Sou escritor e apaixonado por transformar ideias e sentimentos em palavras. Neste espaço, compartilho textos que exploram emoções, conflitos e histórias do cotidiano de forma simples e intensa. Aqui, a escrita é um convite para sentir, refletir e se conectar.

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