Os sons dos pássaros cantando trouxeram à tona a irônica lembrança de Adelaide, uma amiga que conheci em meus dias de moleque, quando jogava no meu velho PC e contava figurinhas de um desenho qualquer. Diferente de mim, todos sabiam quem ela era. Adelaide sempre corria atrás dos pássaros que calavam voo no asfalto de nossa rua, acreditando que, se pegasse um, ele poderia levá-la para o céu, onde poderia brincar com os anjos a quem confiava suas preces, e volta trazendo um pouco do ceu contigo, Assim dizia ela. Caía muito, às vezes em pé, outras vezes de bunda, mas sempre se levantava com um sorriso que pouco tinha de genuíno. Graças ao seu tamanhinho, nunca se machucou feio, mas também nunca conseguiu pegar nenhum passarinho, nenhum sequer. Os vizinhos riam, gostavam das maluquices da garota e até pediam para ajudar. O Sr. Loro até se ofereceu para fazer uma gaiola, mas ela nunca aceitava, algo que nunca esclareceu. Talvez gostasse de infernizar os bichinhos sozinha ou simplesmente não quisesse prendê-los, por receio de que, caso os pegasse, a negassem uma carona ao seu destino.

Sabíamos que, onde Adelaide passava, as pequenas aves corriam para longe, já conhecendo a peça. Ela não parava quieta, nem como uma estátua, e odiava essa brincadeira, dizendo que se ficasse muito tempo parada poderia se atrasar e o tempo de Adelaide era bem gasto, em festas do chá com algumas meninas no fim da rua, boas conversas com a vizinha do lado, jogando bola com os meninos e depois assistindo a alguns filmes na minha casa — momentos que gostava de chamar de “domando o zangado”. Menina irritante! E se, por acaso, sobrasse energia, tinha um bom amigo para conversar, seu companheiro mais leal, que sempre a ouvia e falava. Era com ele que Adelaide depositava suas ideias e aventuras mais loucas e, após analisá-las, fazia questão de me contar cada detalhe, mesmo sempre recusando sair de casa para fazer tais palhaçadas.

Ela era sempre alegre e simpática, fazendo barulho e travessuras, mal parava. Corria atrás dos passarinhos e, quando não pegava nenhum com seus planos estrategicamente elaborados, sempre tinha a mim para gastar seus minutos de pausa, fazendo graça da minha falta de amigos ou do meu vício em jogos ruins, torcia o queixo e a achava irritante, mas, como sempre, sorria como resposta.

Toda terça-feira, eu e Adelaide pegávamos uma flor, apenas uma, a mais linda do jardim, assim como a mais distante que havia no bairro — o jardim da Dona Maria, que sempre plantava flores à espera dos pirralhos que amava. A velhinha adorava Adelaide, sempre a chamava de “meu botão vermelho”, nome influenciado pelo seu cabelo fogo e pelas cores vibrantes de seus vestidos. Infelizmente, dois anos depois, Dona Maria partiu com os passarinhos que Adelaide sempre perseguia, após pegar a flor mais bonita de bela cor e perfeito botão. Incessantemente, na hora exata, sem avisar, Dona Maria já nos oferecia doces e contava histórias de seu tempo de moça, onde inventava, exagerava e mentia um pouco. E como boas crianças, acreditávamos em tudo. Era a única pessoa que prezávamos visitar, pois nos contava histórias sobre o ceu, incentivando a pequena caçadora de aves, e eu que adorava uma boa história , ela valava do seu filho que se encontrou com o “bom pai”, e outras coisas que um vida longa exigia.
Como já tinha o apelido de “Botão vermelho”, Adelaide passou a me chamar de “Teguinho”. Menina irritante! Eu odiava esse apelido, mas, de tanto me chamar assim, acabei sendo conhecido em todo o bairro. Porém, um dia, a mãe dela a proibiu de correr, e ela começou a frequentar minha casa. Nunca me falou o porquê, mas, em contrapartida, contou tudo: cor preferida, música, quem era o mais bonito da rua — assuntos que nunca acabavam.

Havia momentos em que ela sumia da rua, assim como seus pais, passando dias e até noites fora. Mas quando voltava, falava do filme que assistiu e do porquê odiava livros. Como sempre, não parava e, no entanto, sempre voltava sem um pedaço de seu sorriso, e seus olhos adotavam um falso sono. Achei que ela estava passando por aquela fase que toda criança enfrenta antes de se tornar adulta. Mas no último dia de Páscoa, Adelaide me chamou para uma conversa, em um dos dias em que ficava em minha casa. Nossas famílias se juntaram para aceia.

— Tequinho — sussurrou Adelaide, interrompendo meus minutos de videogame antes de comer.

— Fala, pequena.

— Teco, o que você acha do céu?

— Como assim? — respondi, surpreso, desligando a TV e largando o controle ao meu lado.

— Como você acha que é o céu?

— Não sei, acho que é um lugar bobo pra você tentar ir apenas correndo atrás dos pássaros.

Ao ver seu sorriso frágil, tentei imitar o mesmo, a fim de alegrá-la.

— Mas por que pergunta?

— Nada, acho que deve ser um lugar lindo para se visitar — disse ela, sorrindo novamente como uma santa, perdoando meu desaforo passado.

— Pera, você pegou um? — Isso poderia explicar o porquê de ela não sair mais e de estar sempre fora, será que ia e voltava várias vezes com os pais?

— Teco, se eu for morar no céu, você iria me visitar? Aí nós pegamos um pássaro pra você? — Deu pra ver um tipo de olhar que só depois pude entender como desespero e súplica. O susto da minha mãe nos chamando me fez engolir minha resposta a seco, então deixei a pergunta sem resposta, até sentir um certo descontentamento em ver as flores e os pássaros reunidos no dia seguinte, e ela não acordar para fazer uma bagunça.

Contudo, não levantava, não abria os olhos, e sua pele já não tinha o mesmo brilho. Ia perguntar o porquê, mas deixei-me submergir nos meus pensamentos pelo silêncio e encarar aquele caixão de madeira que a guardava vestida, em um vestido que a enfeitava de forma tão serena.

“Adelaide, acorda, essa maquiagem não tem graça, e esse vestido branco não lhe cai bem”, sussurrava em pensamento. E ali, no último instante, tropecei e caí em mim mesmo. Chorando, olhei para os pássaros e os repreendi por levá-la tão a sério.

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sou natanael

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Sou escritor e apaixonado por transformar ideias e sentimentos em palavras. Neste espaço, compartilho textos que exploram emoções, conflitos e histórias do cotidiano de forma simples e intensa. Aqui, a escrita é um convite para sentir, refletir e se conectar.

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